Hoje é o dia.
O sol nasceu, como é seu hábito, já queima.
O vento, teimoso, varre os cantos das ruas e vielas de Lisboa.
E eu, cansado, sigo o mesmo caminho de sempre.
Mas hoje é o dia.
As memórias, tingidas de sal, são filmes que espero ver e rever.
A saudade estanca o choro e prevalece quente e alegre.
E eu, olho para a tua imagem e sei que nunca te esquecerei.
E hoje é o dia.
Não há mais palavras que te possa sussurrar.
Os poemas que te escrevo já nem fazem sentido.
E eu, nem preciso saber falar, para te conseguir ouvir.
Todos os momentos em que me recordo.
Todas as viagens são rasgos de luz.
E eu, sempre teu, recordo-te minha, sempre mãe.
E porque hoje é o dia,
Prometo chorar-te até à eternidade.
Rasgar o peito com a saudade.
E gritar o teu nome em momentos de desespero.
Mas sempre sabendo que estás aqui no meu peito.
E que, se não te tenho fisicamente, tenho-te sempre em mim.
Sangue do teu sangue, vida a que deste o sopro da vida.
E sendo hoje o dia,
Elevo-te na memória e deixo-te em palavras tontas.
Pedaços de rimas incompletas, como a tua vida.
E retalhos de momentos que vivemos os dois.
E ao longo do dia, o sol continuará a queimar-me as faces.
As lágrimas, levadas pelo vento, deixarão a minha pele seca.
E eu, sorrindo, falarei de ti ao mundo.
in Memoriam — Maria Nella Vercesi Tierno da Silva (1949–2009)
Tomo I
Revejo-me agora, sob a chuva de Agosto em Lisboa. O ar quente evapora as gotas que caiem lá em baixo, no alcatrão oleoso. Curiosa perspectiva. Não trouxe a camera comigo. Mas, não importa, na verdade. Sempre fui um fotógrafo que gosta de ser visto. Que gosta de ser reconhecido. E, mesmo que agora tirasse a melhor foto da minha vida, não iria cá estar para receber os louros. E eu gosto de receber os louros pelo meu trabalho. Eu gosto de receber a atenção que penso merecer. Eu gosto dessa pontinha de narcisismo que me distingue e caracteriza. E, no entanto, gostaria de ter aqui a minha camera.
O parapeito está molhado e os pés, descalços, teimam em deslizar. Não seria bonito se escorregasse agora. Nem chegava lá abaixo. Ficava-me pela varanda, com um pescoço partido, provavelmente… E isto, com sorte. Nos dias que correm, uma cadeira de rodas seria o destino provável se eu não fizer isto bem feito.
A chuva intensifica-se. Óptimo. Assim abafa o barulho. O som oco e seco de um corpo a estatelar-se no pavimento chama muito a atenção. Preciso de tempo. Tempo para que tudo corra na perfeição. Tempo para poder expirar pela última vez, caso não o faça no impacto. Nada de socorros apressados e tentativas de reanimação. Preciso de ser um caso perdido, no instante em que a minha massa sucumbir à inércia da gravidade. E isso, só a chuva me pode dar.
Olho agora pela última vez a linha do horizonte desta Lisboa que sempre apelidei de minha. O recorte das chaminés com as inestéticas parabólicas e antenas mais tradicionais confundem-se ao longe com a poluição dos tempos modernos. Recordo os meus tempos de juventude, quando a imagem passou a ser algo mais do que um simples estímulo visual. Na altura não havia parabólicas. Apenas chaminés fumegantes e a ocasional antena RF. As cores de Lisboa também estão diferentes. O neon invadiu-nos as fachadas. Parece uma festa de carnaval constante, mas sem a pica e os sons adequados.
Ao longe, já se vislumbram os primeiros raios de Sol, sobre a silhueta do infame bairro de Chelas — na verdade um bairro feito de bairros — de onde guardo muitas memórias, boas e não tão boas. Um bom pedaço da minha vida ficou lá, naquele recanto da cidade, onde entrei a medo a primeira vez que me fui encontrar com… não interessa para o caso. Não posso deixar de expressar um sorriso ao pensar no que uns cabelos compridos e uma cerveja conseguem fazer…
E, com esta lembrança, a minha vida corre perante mim, qual telenovela, em que os episódios, devidamente compartimentados em secções de 90 minutos, me retratam monstro e herói, filho, irmão e pai, amigo, amante ou apenas um homem, na sua verdadeira insignificância perante a grandeza de todas as coisas.
Curioso como a nossa vida se resume a pequenos apontamentos, videoclips com banda sonora e tudo. Pelo menos é assim que tenho a percepção da minha. Desde a infância, as primeiras memórias surgem sempre combinadas com pontos de vista dramáticos, como se a minha vida tivesse um realizador próprio, com movimentos de camera específicos. Pessoalmente, sou um misto de Manoel de Oliveira e CSI Miami, seja lá o que isso for.
Esforço-me por recordar aquilo que considero a única lembrança dos meus pais enquanto casal, numas férias nas Canárias. A minha mãe, refastelada ao sol, já morena– contra-senso, dado que a minha mãe era loura — e eu, às costas do meu pai, na piscina, “nadando”. A própria visão que tenho tens cores típicas dos anos 70, sem a definição Full HD dos dias de hoje. E os sons que me ocorrem são pedaços da banda sonora da série “Verão Azul”, vá-se lá saber porquê. Era um tempo de ilusões, para todos nós.
Mais tarde, não sei precisar quanto, recordo-me de não querer comer bróculos e peixe cozido, em casa do meu pai, já casado pela segunda vez. E nisto revejo um hiato, um abismo entre duas fases da minha vida. Claro que tenho outras memórias. Recordo-me da casa dos meus pais. Os posters de Charlot e Che Guevara (estranha combinação) e as luzes disco que havia na sala. Ver o Sandokan numa minúscula TV a preto e branco. E pouco mais. Mas ainda tenho algumas memórias. Talvez mais do que muitos poderão afirmar.
E depois? Aqui perco-me um pouco. Os meus irmãos, o falecimento da minha madrasta, visitá-la anos antes na escola em que dava aulas. Tudo se confunde numa amálgama de instantes que não têm cronologia definida.
Os primeiros raios de sol tocam o topo dos edifícios mais altos. Está quase na hora. Aguardo que este mesmo sol me aqueça a face pela última vez, forçando-se por entre as gotas de chuva e as nuvens que insistem em tentar impedi-lo de chegar até mim. Fecho os olhos e imagino o que me aguarda. Apenas um passo me separa do futuro, seja ele qual for. Apenas um movimento, uma contracção sincronizada dos músculos que me sustentam as pernas e, por consequência, o corpo. Apenas um passo.
(…) continua