Tomo I

Revejo-me agora, sob a chuva de Agosto em Lis­boa. O ar quente eva­pora as gotas que caiem lá em baixo, no alca­trão ole­oso. Curi­osa pers­pec­tiva. Não trouxe a camera comigo. Mas, não importa, na ver­dade. Sem­pre fui um fotó­grafo que gosta de ser visto. Que gosta de ser reco­nhe­cido. E, mesmo que agora tirasse a melhor foto da minha vida, não iria cá estar para rece­ber os lou­ros. E eu gosto de rece­ber os lou­ros pelo meu tra­ba­lho. Eu gosto de rece­ber a aten­ção que penso mere­cer. Eu gosto dessa pon­ti­nha de nar­ci­sismo que me dis­tin­gue e carac­te­riza. E, no entanto, gos­ta­ria de ter aqui a minha camera.

O para­peito está molhado e os pés, des­cal­ços,  tei­mam em des­li­zar. Não seria bonito se escor­re­gasse agora. Nem che­gava lá abaixo. Ficava-me pela varanda, com um pes­coço par­tido, pro­va­vel­mente… E isto, com sorte. Nos dias que cor­rem, uma cadeira de rodas seria o des­tino pro­vá­vel se eu não fizer isto bem feito.

A chuva intensifica-se. Óptimo. Assim abafa o baru­lho. O som oco e seco de um corpo a estatelar-se no pavi­mento chama muito a aten­ção. Pre­ciso de tempo. Tempo para que tudo corra na per­fei­ção. Tempo para poder expi­rar pela última vez, caso não o faça no impacto. Nada de socor­ros apres­sa­dos e ten­ta­ti­vas de rea­ni­ma­ção. Pre­ciso de ser um caso per­dido, no ins­tante em que a minha massa sucum­bir à inér­cia da gra­vi­dade. E isso, só a chuva me pode dar.

Olho agora pela última vez a linha do hori­zonte desta Lis­boa que sem­pre ape­li­dei de minha. O recorte das cha­mi­nés com as ines­té­ti­cas para­bó­li­cas e ante­nas mais tra­di­ci­o­nais confundem-se ao longe com a polui­ção dos tem­pos moder­nos. Recordo os meus tem­pos de juven­tude, quando a ima­gem pas­sou a ser algo mais do que um sim­ples estí­mulo visual. Na altura não havia para­bó­li­cas. Ape­nas cha­mi­nés fume­gan­tes e a oca­si­o­nal antena RF. As cores de Lis­boa tam­bém estão dife­ren­tes. O neon invadiu-nos as facha­das. Parece uma festa de car­na­val cons­tante, mas sem a pica e os sons adequados.

Ao longe, já se vis­lum­bram os pri­mei­ros raios de Sol, sobre a silhu­eta do infame bairro de Che­las — na ver­dade um bairro feito de bair­ros — de onde guardo mui­tas memó­rias, boas e não tão boas. Um bom pedaço da minha vida ficou lá, naquele recanto da cidade, onde entrei a medo a pri­meira vez que me fui encon­trar com… não inte­ressa para o caso. Não posso dei­xar de expres­sar um sor­riso ao pen­sar no que uns cabe­los com­pri­dos e uma cer­veja con­se­guem fazer…

E, com esta lem­brança, a minha vida corre perante mim, qual tele­no­vela, em que os epi­só­dios, devi­da­mente com­par­ti­men­ta­dos em sec­ções de 90 minu­tos, me retra­tam mons­tro e herói, filho, irmão e pai, amigo, amante ou ape­nas um homem, na sua ver­da­deira insig­ni­fi­cân­cia perante a gran­deza de todas as coisas.

Curi­oso como a nossa vida se resume a peque­nos apon­ta­men­tos, vide­o­clips com banda sonora e tudo. Pelo menos é assim que tenho a per­cep­ção da minha. Desde a infân­cia, as pri­mei­ras memó­rias sur­gem sem­pre com­bi­na­das com pon­tos de vista dra­má­ti­cos, como se a minha vida tivesse um rea­li­za­dor pró­prio, com movi­men­tos de camera espe­cí­fi­cos. Pes­so­al­mente, sou um misto de Manoel de Oli­veira e CSI Miami, seja lá o que isso for.

Esforço-me por recor­dar aquilo que con­si­dero a única lem­brança dos meus pais enquanto casal, numas férias nas Caná­rias. A minha mãe, refas­te­lada ao sol, já morena– contra-senso, dado que a minha mãe era loura — e eu, às cos­tas do meu pai, na pis­cina, “nadando”. A pró­pria visão que tenho tens cores típi­cas dos anos 70, sem a defi­ni­ção Full HD dos dias de hoje. E os sons que me ocor­rem são peda­ços da banda sonora da série “Verão Azul”, vá-se lá saber porquê. Era um tempo de ilu­sões, para todos nós.

Mais tarde, não sei pre­ci­sar quanto, recordo-me de não que­rer comer bró­cu­los e peixe cozido, em casa do meu pai, já casado pela segunda vez. E nisto revejo um hiato, um abismo entre duas fases da minha vida. Claro que tenho outras memó­rias. Recordo-me da casa dos meus pais. Os pos­ters de Char­lot e Che Gue­vara (estra­nha com­bi­na­ção) e as luzes disco que havia na sala. Ver o San­do­kan numa minús­cula TV a preto e branco. E pouco mais. Mas ainda tenho algu­mas memó­rias. Tal­vez mais do que mui­tos pode­rão afirmar.

E depois? Aqui perco-me um pouco. Os meus irmãos, o fale­ci­mento da minha madrasta, visitá-la anos antes na escola em que dava aulas. Tudo se con­funde numa amál­gama de ins­tan­tes que não têm cro­no­lo­gia definida.

Os pri­mei­ros raios de sol tocam o topo dos edi­fí­cios mais altos. Está quase na hora. Aguardo que este mesmo sol me aqueça a face pela última vez, forçando-se por entre as gotas de chuva e as nuvens que insis­tem em ten­tar impedi-lo de che­gar até mim. Fecho os olhos e ima­gino o que me aguarda. Ape­nas um passo me separa do futuro, seja ele qual for. Ape­nas um movi­mento, uma con­trac­ção sin­cro­ni­zada dos mús­cu­los que me sus­ten­tam as per­nas e, por con­sequên­cia, o corpo. Ape­nas um passo.

(…) con­ti­nua

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in Memoriam

Hoje é o dia.

O sol nas­ceu, como é seu hábito, já queima.
O vento, tei­moso, varre os can­tos das ruas e vie­las de Lis­boa.
E eu, can­sado, sigo o mesmo cami­nho de sempre.

Mas hoje é o dia.

As memó­rias, tin­gi­das de sal, são fil­mes que espero ver e rever.
A sau­dade estanca o choro e pre­va­lece quente e ale­gre.
E eu, olho para a tua ima­gem e sei que nunca te esquecerei.

E hoje é o dia.

Não há mais pala­vras que te possa sus­sur­rar.
Os poe­mas que te escrevo já nem fazem sen­tido.
E eu, nem pre­ciso saber falar, para te con­se­guir ouvir.

Todos os momen­tos em que me recordo.
Todas as via­gens são ras­gos de luz.
E eu, sem­pre teu, recordo-te minha, sem­pre mãe.

E por­que hoje é o dia,

Pro­meto chorar-te até à eter­ni­dade.
Ras­gar o peito com a sau­dade.
E gri­tar o teu nome em momen­tos de desespero.

Mas sem­pre sabendo que estás aqui no meu peito.
E que, se não te tenho fisi­ca­mente, tenho-te sem­pre em mim.
San­gue do teu san­gue, vida a que deste o sopro da vida.

E sendo hoje o dia,

Elevo-te na memó­ria e deixo-te em pala­vras ton­tas.
Peda­ços de rimas incom­ple­tas, como a tua vida.
E reta­lhos de momen­tos que vive­mos os dois.

E ao longo do dia, o sol con­ti­nu­ará a queimar-me as faces.
As lágri­mas, leva­das pelo vento, dei­xa­rão a minha pele seca.
E eu, sor­rindo, fala­rei de ti ao mundo.

in Memo­riam — Maria Nella Ver­cesi Tierno da Silva (1949–2009)

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Por mais que doa

Por mais que doa, a sau­dade será sem­pre memó­ria.
Por mais que receie vol­tar a ser inter­nado, a pos­si­bi­li­dade está bem pre­sente.
Vivo numa luta diá­ria com o meu orga­nismo e não con­sigo fugir aos res­tan­tes pro­ble­mas.
E, no entanto, o sol bri­lha mais do que nunca.
E depois… a rea­li­dade abate-se e vol­ta­mos para den­tro da nossa mura­lha.
Lutar, lutar, lutar… Esse é o motor, a von­tade é poder acor­dar para mais um dia.
Mesmo que seja com a saúde em estado mise­rá­vel. Mesmo que seja com a dor da perda.
Mesmo que seja como a pers­pec­tiva de cons­tan­tes bata­lhas per­di­das.
Por mais que doa, sere­mos sem­pre nós a infli­gir a dor a nós próprios.

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31 556 926 segundos

No dia 21 serão 31 556 926 as bati­das do reló­gio desde a última vez que te bei­jei.
Recu­sei dizer-te adeus. Um até depois pareceu-me mais ade­quado.
E que te posso dizer depois de um ano?
A tua par­tida aproximou-me dos meus irmãos.
Tem sido dolo­ro­sa­mente intensa a per­cep­ção da falta que me fazes.
As lágri­mas nunca dei­xa­ram de cair por ti.
Mas já não choro em deses­pero. Choro em sau­dade.
Por­que tu não estás. E por­que a minha segunda mãe está longe, do outro lado do oce­ano.
E assim, as bases que me sus­ten­ta­vam desa­pa­re­ce­ram, em meses.
Mas fui bus­car for­ças e fixei-me, adulto. O adulto que evi­tava tornar-me nes­tes anos todos.
E agora choro, mas por sau­dade. Pela falta que me fazes.
Con­ti­nuo às tur­ras com a minha saúde, guerra eterna. Cada vez com mais cui­da­dos.
Penso nas miú­das, penso nisto tudo o que me rodeia.
Tomo deci­sões, ponho-me a mexer que algo tem que mudar.
Não sei onde esta­rei daqui a 31 556 926 segun­dos.
A única cer­teza é a de con­ti­nu­a­rei a sen­tir os segun­dos que passo sem ti.
Con­ti­nu­a­rei a cho­rar com sau­dade e que vol­ta­rei a escre­ver sobre ti.
Um beijo mamã. Saudades…

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Calendário de uma vida.

Com o pas­sar dos dias, encurta-se o tempo. Marcam-se dias no calen­dá­rio. Pon­tos de refe­rên­cia. Datas a não esque­cer. Datas que nin­guém nunca deve­ria lembrar-se. Datas que não deve­riam ter exis­tido.
Mas estão lá. E deve­mos lembrá-las. Sem­pre. Pelo que repre­sen­tam. Pelo que nos ensi­nam. Pelo que nos tiram e nos ofe­re­cem em simul­tâ­neo.
E sabe­mos que há dias que ansi­a­mos. E dese­ja­mos. E outros pelos quais dese­ja­ría­mos não ter de pas­sar. Por­que doem. Por­que nos tra­zem à memó­ria momen­tos difí­ceis.
E, depois de pas­sa­rem, há dias que ficam na memó­ria por terem sido bons. Cur­tos, que­rendo mais. Com desejo de avan­çar no calen­dá­rio até ao pró­ximo. E outros, que deixando-nos ali­vi­a­dos por já terem pas­sado, nos aumen­tam a angus­tia de saber­mos que vol­ta­rão, mais cedo ou mais tarde.
Ainda assim, todos são dias, míse­ras 24 horas num qual­quer plano (divino, uni­ver­sal, chamem-lhe o que qui­se­rem), num manto de reta­lhos que são as nos­sas vidas, todas inter­li­ga­das por peque­nas fibras. Fibras que fazem de nós seres, enti­da­des, indi­ví­duos, unos. E que, ainda que unos, não somos mais do que um grande calen­dá­rio de efe­mé­ri­des que se repe­tem, segundo após segundo, dia após dia, vida após vida.

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Agora que vejo já uma luz, um novo futuro, deses­pero. Ansia de viver, tal­vez.
Lutar por reen­con­trar a feli­ci­dade que dei­xei algu­res no caminho.

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Num momento…

Estou à pro­cura de um momento.
Uma frac­ção mínima. Uma par­cela infi­ni­ta­mente pequena.
Algo tão dimi­nuto quanto o pró­prio tempo o pode ser.
Um momento. Um ins­tante. Ins­tan­tâ­neo.
E nesse pequeno pedaço de vida, apaixonar-me novamente.

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Depois do silêncio…

Depois do silên­cio, um grito de liber­dade.
Depois do silên­cio, as mor­da­ças des­fei­tas no chão.
Depois do silên­cio, um grito pela sau­dade e a lágri­mas já secas, per­di­das na solidão.

Depois do silên­cio, as pala­vras.
Depois do silên­cio, as amar­ras são memó­rias.
Depois do silên­cio, as pala­vras são pou­cas para tudo o que ficou por dizer.

Depois do silên­cio, escrevo rimas des­gar­ra­das.
Depois do silên­cio, os sor­ri­sos não soam a fachada.
Depois do silên­cio, digam o que dis­se­rem, con­ti­nuam a ser nada.

Depois do silên­cio, tanto se pode dizer.
Depois do silên­cio, tanto mais se pode escre­ver.
Depois do silên­cio, nada ficou por fazer.

Depois, o silêncio…

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12 meses

Dia 29 de Junho e dou por mim a con­tar os dias no calen­dá­rio.
Fará um ano, em breve. Um ano de ausên­cia, de per­gun­tas, de vazio, de lágri­mas.
Um ano que ser­viu essen­ci­al­mente para ques­ti­o­nar tudo (e todos).
Que ser­viu para me ques­ti­o­nar e por em causa tudo o que tomei como certo.
E que me levou à des­co­berta que afi­nal tudo o que pre­tendo está ao meu alcance.
Basta que estenda o braço, que abra a mão e o agarre.
E que não tenha receio das dores, ine­vi­tá­veis.
E, ao longo deste ano, redes­co­bri o valor da ami­zade e per­cebi que, à medida que o tempo passa, e nos tor­na­mos mais velhos, é impos­sí­vel com­ba­ter o iso­la­mento a que nós pró­prios nos con­fi­na­mos.
E que, por mais mails e face­bo­oks e tele­mó­veis, aca­ba­mos por estar mais sós do que nos tem­pos em que nos encon­trá­va­mos no café. Por­que sabía­mos que era ali que nos encon­tra­ría­mos…
E então, ao fim deste pri­meiro ciclo de 12 meses, que lições tirar?
Foi pre­ciso que a minha mãe sofresse o último sacri­fí­cio para me por a mexer…
Se, com este pro­cesso, encon­trar por fim a essên­cia de mim que entre­tanto per­dera, então as lágri­mas não foram em vão.
Mas que é dolo­roso… Como dói… E vai con­ti­nuar a doer, sempre…

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Frase Célere — Junho 2010

Afio o gume da nava­lha mergulhando-o no teu corpo

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