- Bom dia – disseste, assustando-me.
– Não Te esperava aqui. – respondi – É a primeira vez que vens ter comigo. A que devo esta honra?
– Nenhum motivo em particular. Vim saber como te sentes, depois da provação destes últimos meses.
– Em relação a isso… porquê? Que necessidade havia para me fazeres passar por isto tudo? Já não chega a minha mulher? Também precisas que eu adoeça e, para cúmulo, a minha mãe?
– Calma, calma. Sei que estás zangado. Afinal, não me procuraste nem uma única vez desde que esta fase da tua vida se iniciou. Mas posso-te garantir que não fui eu o responsável directo pelo que se tem passado ultimamente. Essencialmente tem sido um conjunto de circunstâncias a que vocês gostam de apelidar de azares. Herança genética, pequenas acções do dia-a-dia, tudo pode ter contribuído para as efermidades…
– Azares? – vociferei – Vens a minha casa dizer-me que são azares? Podes crer que estou zangado! Contigo, com o mundo, com isto tudo! Não havia necessidade… – a minha voz esmoreceu à medida que as lágrimas se formavam no meu rosto.
– É muito “azar” junto. – disse, enfatizando a frase com o gesto típico das aspas, à laia de sarcasmo.
– Não disse que foram azares. – respondeste, com a calma e serenidade que te caracterizam – Foram um conjunto de circunstâncias a que VOCÊS costumam de apelidar de azares. Mas não te preocupes, não fico chateado contigo por estares assim tão zangado. Mas diz-me, como te tens sentido nessa tua demanda pela espiritualidade?
Olhei para Ti com ar desconfiado. Ia perguntar-Te como sabias das minhas leituras de obras budistas mas rapidamente me dei conta que não há nada que não saibas. No fim de contas És omnisciente, omnipresente e tudo isso.
– Confuso. – confessei – há muitas correntes, há demasiadas diferenças e, acima de tudo, há muitos conceitos que ainda me são difíceis de assimilar dado que sou produto de uma sociedade e educações tipicamente capitalistas. Isto, claro, independentemente das minhas convicções políticas. Estou apenas a referir-me às crenças e formas de encarar a fé e os homens.
Reparei que percorrias com a vista os meus livros, aleatoriamente depositados nas estantes, esboçando um sorriso ocasional em certas obras. Subitamente viraste a Tua atenção para mim, com ar sério e com tal intensidade como nunca tinha sentido antes.
– Estás no caminho certo. Não te preocupes com as dúvidas que possas ter agora. Fazem parte da jornada para descobrires quem és e qual o teu lugar no universo. Não importa o nome da corrente, a definição da religião ou a forma como designam as entidades que veneram. Importa que aprendam a ouvir a sua voz interior. Como diria o teu recentemente descoberto Dalai Lama, somos universos dentro de universos. Nisso, ele está correcto. A nossa essência é o átomo. Tu e eu e tudo o resto. Somos iguais, pares. Em última análise, somos unos.
Ouvi perplexo. Nunca me tinhas oferecido tamanho discurso. Muito menos referindo directamente a questão das religiões. Os meus olhos brilharam como estrelas qual criança que vai ao circo a primeira vez e para a qual tudo é novo e maravilhoso. De certeza que tinha a boca aberta de espanto mas não me importei. Como se fosse possível, aumentei a minha capacidade auditiva para que não perdesse uma única sílaba.
– Relativamente às doenças que te afectaram, a ti e aos teus, – O tom da tua voz tornou-se ainda mais sério – tens que encarar isto tudo como parte desse mesmo caminho. Não é algo que possas controlar ou que possas atribuir culpas a alguém ou alguma coisa. Ao contrário do que se costuma apregoar, eu não decido o vosso destino. São vocês, com as escolhas do dia-a-dia, que determinam o caminho a seguir. E por vezes esse caminho é sinuoso, cheio de perigos e atribulado. Outras é suave e um simples passeio. – Aligeiraste a postura e o tom, continuando – Mas não penses que eu não estou por aqui ao vosso lado. Acompanho-vos em todas as vossas opções, sejam elas quais forem. Não há escolhas erradas, apenas as vossas escolhas. Por vezes poderão parecer-vos erros graves mas acabam por determinar quem são. Quem és. Repara, caso não tivesses seguido o teu caminho como tens feito, provavelmente não terias oportunidade nem vontade de ter estes pequenos diálogos comigo. Estarei certo?
Respondi afirmativamente com um pequeno acenar de cabeça. Claro que estás certo, pensei. Outra coisa não poderia ser. E quem sou eu para por isso em causa. O sal fez-se notar nos meus lábios. Levei a mão à cara para limpar as últimas lágrimas que ainda faziam o seu próprio caminho, teimosamente deslizando face abaixo. Entre um sorriso discreto e um suspiro contido disse-te um obrigado que, embora praticamente inaudível, era sentido. Sorriste, agora como quem acaba de sair de um filme “bem disposto” e desapareceste como chegaste. De surpresa. Olhei para a estante à minha frente e peguei num livro, aparentemente ao acaso. “O universo num átomo” por Sua Santidade o Dalai Lama. Escolha curiosa, pensei, rindo-me…
Category Diálogos
IV">Tomo IV
III">Tomo III
- Desculpa ter chegado atrasado. — Disse-Te enquanto me sentava cuidadosamente nas rochas que escolheras nesse dia para Te encostares. Parecia simples olhando para a forma descontraida como estavas e, no entanto, demorei cerca de cinco minutos só para chegar até Ti, num percurso de dez metros.
Olhaste para mim, sorrindo, como sempre — algo que nunca percebi bem porquê nem como — e franziste meio sobrolho, pelo menos assim me pareceu, que se tivesses sobrolho que se visse, estaria nesse momento franzido.
– Chegaste atrasado, bem sei, mas não tem importância. Ainda tens tempo de sobra para gastar. Aproveita-o como bem ententeres.
– Não vou por ai. — Respondi — Não quero entrar na conversa em forma espiralada de “Quanto tempo tenho?” ou “Quando chegará a minha hora”. Se o fizer entro em parafuso e estouro o fusível.
Sorriste agora de forma mordaz e declarada. Era fácil perceber quando sorrias. A luz do sol ficava mais clara, se que é possível ter-se luz ainda mais clara que o branco da luz do sol — Pareces ter amadurecido desde a última vez que conversámos.
Olhei-te com ar desconfiado. Normalmente não costumas ser assim a não ser que tenhas algo na manga. Não que tenhas mangas, ou não. Sei lá. Não faço ideia, mas entendes-me.
– Pareces mais tu. — De novo, a suspeita de algo mais do que simples elogios reflectiu-se no meu semblante. — Que queres dizer com isso? Não costumas dizer algo desse cariz de forma tão gratuita. Que se passa? Há algo que deva saber?
– Vês? Até o teu vocabulário amadureceu. “Cariz” não é algo que um pretenso “adolescente de 34 anos” utilize no seu discurso habitual.
Raios! Mas que é que quer Ele dizer com isso? Estou com mais cabelos brancos, é certo. na barba, nem se fala, mas… Que será que ele sabe que eu não sei?
De repente dei por mim a rir desalmadamente. Olhaste-me, de novo, tranquilo e sereno, como sempre. Pelo menos como sempre eu Te vi. Soube que não perguntaras porque me estava a rir pois provavelemte já o saberias de antemão. E eu a questionar-me de que saberias Tu… Apenas TUDO, não é? Afinal de contas, não é suposto seres omni… omnisciente?
– Não… — Disseste baixinho. — Sei o que sei por serem verdades universais mas não sei de todas as instrínsecas e complexas aventuras da condição humana, por exemplo.
– Como assim? Desculpa, mas agora tens que Te explicar!
– Calma, eu explico. Por exemplo, eu sei o que o universo tem planeado, tudo o que se irá suceder com os astros, como e quando determinadas estrelas se irão auto-destruir no belo espetáculo a que apelidam de SuperNovas. Sei também como estará o clima nos próximos milénios. No entanto, e isso é muito importante, não sei o que dirás amanhã de manhã às tuas filhas quando estas acordares. Quer dizer, faço uma ideia por te observar diariamente, a ti e a todos os outros, mas há certas coisas que só a vocês compete decidir e, como tal, me são completamente desconhecidas. Desta forma, mantenho a imparcialidade necessária, a arbitrariedade desejada e não me aborreço…
– Ouve-me, disse. Lembrei-me porque vim aqui hoje. Não o fizera antes porque a raiva tinha tomado conta de mim e, durante um largo período de tempo, fiz de Ti o meu alvo preferido. Ainda assim, preciso de te perguntar porquê. Porquê? Já não bastava as dificuldades de sermos como somos e de trazermos para o presente o peso de uma vida complexa e por vezes sem grande sentido? Não basta ter que lutar contra os meus fantasmas e os dela ao mesmo tempo? E porque ela e não eu? Mais, porque naquele momento? Quando deveria ser algo tão belo, quase angelical… Porquê?
– Lamento, mas não te posso responder a todas essas questões. Se o fizesse estaria a ser injusto contigo…
– Injusto? Queres mais injustiça do que ser diagnosticada com cancro de mama na semana em que damos à luz o nosso primeiro filho?
– Sim, injusto. Imagina saberes exactamente as respostas a todas as tuas perguntas. No entanto não podes transmitir nada a ninguém. De que te serviria o conhecimento se não pudesses utilizar para consolar a tua mulher? Para que lidares com o tormento de teres conhecimento sem poderes partilhar com quem te rodeia? E por último, como te disse, há certas coisas que deixo ao acaso, se é que de acasos podemos falar. Digamos que as condições estavam criadas. As escolhas são vossas. Se tomaram determinadas decisões, se escolheram determinados caminhos, isso é que constrói o vosso destino, com as pequenas peças que vão apanhando pelo caminho… No teu caso, podes perguntar-te, como sei que o fazes, se não tivessem levado a gravidez avante, talvez o tumor não se tivesse desenvolvido. Pensa antes assim, se não tivessem levado a gravidez avante, talvez o tumor não tivesse sido detectado a tempo…
– Percebo o que queres dizer, mas tem sido tão dificil… Não é só lidar com os problemas financeiros e as discussões idiotas que se geram á conta disso. São todos os dias que passamos a tentar fazer o nosso melhor e, na maioria dos casos, parece simplesmente não chegar. As miudas que berram, a casa sempre num caos, o dinheiro que se esgota e ainda nem vamos a meio do mês. Os truques e quase magia que temos que fazer para ter comida na mesa durante o período em que estamos “lisos”. Os disparates que faço, mesmo sabendo as repercursões no orçamento familiar. O jardim zoológico que temos dentro de casa. A saúde da minha mulher. A minha saúde. Os receios pela saúde das minhas filhas. O tentar singrar numa empresa apenas porque somos obrigados a ter um nível salarial elevado para poder pagar as contas. Os problemas de sono resultantes disto tudo e que me levam a ter o emprego na corda bamba… Enfim, todos os dias são uma aventura, sempre com as mesmas personagens, sempre com o mesmo guião, em que sempre tentamos arrancar os aplausos ao fim do dia e nem sempre os ouvimos…
– Sim, eu sei. Mas congratula-te por, pelo menos, tentares. Há quem, pura e simplesmente, desista…
Durante alguns minutos ficámos ali, sentados no promontório onde sempre nos encontramos, embora saiba que não interessa realmente qual o rochedo onde te procure, estás sempre lá. Basta olhar. Levantei-me, finalmente. Não sabia quanto tempo tinha estado ali mas também não era importante. Afinal ainda tinha algum tempo de sobra e nunca é demais falar com Ele. Não se pode considerar isso como tempo perdido. Segui o meu caminho de sempre, de regresso ao único sítio que conheço como casa, com gritos, berros, choros de criança e barulhos de animais diversos entrecotados com as discussões diarias de uma família que luta pela vida, pelo amor à vida. Que luta por amor. Um dia destes conversaremos um pouco mais, quando Te voltar a procurar no “nosso” promontório, ou noutro rochedo qualquer…
II">Tomo II
Sentei-me ao teu lado. De novo. Mais uma vez. Encontrei-te onde esperava. Aqui. Estavas como sempre estiveste. Calmo, sereno. Ficámos ali, sem dizer nada, hora após hora. Senti que me olhavas. Curioso, talvez. Era a primeira vez que não abria a boca estando contigo. Ali. Fosse onde fosse. Não pensei que fossem necessárias palavras, pensei para comugo. Sorriste. Olhaste para o livro que trazia na mão. Respostas, era o título. O autor, Dalai Lama. Sorriste mais uma vez. Foi então que disseste: “Alegra-me saber que procuras respostas e não te limitas a colocar questões ao vento.” Olhei para ti pela primeira vez naquele dia. “Não é fácil, pois não?” Sim, tens razão, como sempre. Ainda assim há sempre qualquer coisa por responder. Mesmo quando tudo nos parece claro. Mesmo os recantos mais negros da nossa alma. Ainda assim, há perguntas sem resposta. “O que é que querias? Se tudo fosse assim, como pretendem, não fazia sentido estar aqui, convosco. Não tenho a resposta para tudo, apenas vos posso ajudar a encontrar o caminho certo. E, como verás, não sou o único a afirmá-lo.” — E olhou mais uma vez para o livro que trazia naquele dia. Olhei também. Abri-o ao acaso e li uma passagem aparentemente desprovida de contexto. Ouviste com atenção, olhar sereno sobre o horizonte. Não comentaste, nem sequer te vi mexer um milímetro. “Não tens nada a dizer?”, perguntei. “Que queres que te diga? Que está certo? Que está errado? Já me devias conhecer minimamente para saberes que não julgo os homens. Nem mesmo aqueles cuja iluminação em relação às coisas do mundo e do espírito está mais alta do que a maioria. Dalai Lama é um ser humano sábio. Ele sabe o que diz e porque o diz. Da mesma forma que tu o saberias se deixasses de lado as ancoras da vida quotidiana e a futilidade de advém da tua forma de vida ‘progressista’ e ‘moderna’. E isso aplica-se a qualquer ser. Repara, os girassóis giram ao longo do dia em busca do calor do sol. Nada mais lhes interessa. Tem esse propósito único na vida. Os salmões nadam milhares de quilómetros para desovarem algures junto à nascente de um rio e morrerem a seguir. É esse o seu propósito na vida. É isso que vos faz falta como seres universais. Descobrir o vosso propósito na vida. Por isso passam os vossos anos na terra em constante turbilhão emocional em busca de algo quem nem vocês bem ao certo. E finalmente, no momento em que deixam esta existência, nem sempre completa, nem sempre concluída, nem sempre satisfatória, nem sempre vivida, só nesse momento têm um pequeno vislumbre do vosso propósito. Só nesse momento. E então num último sopro de vida, tentam deixar a mensagem a quem vos acompanha naquele momento. Na maioria das vezes não o conseguem. Porque acabam perdidos, sozinhos na multidão.” Olhou para mim de frente. “Vale a pena viver assim?” Estranhei a pergunta, que não soubesse pensaria que… “Não é nada disso. Pergunto-te se vale a pena viver assim para que tenhas mais uma escolha no teu caminho. Mas a escolha, em última análise, será tua e só tua. E por hoje já chega, deixa-me meditar. Por vezes cansas-me mais tu do que um terramoto na India.” E eu fui. Só eu mesmo
Tomo I
“Olá.” — dizes-me tu com ar despreocupado. Como se nada te afectasse. Logo a ti, que tudo tem que forçosamente afectar. Olhas para mim como se nos tivessemos cruzado ainda ontem e dizes:
“Estás mais velho.”.
Respondo-te chocado que já se passaram 8 anos.
“Já assim tantos? Parece que foi ontem.”
Pois, para alguém da tua idade é natural que não seja muito. Para nós, comuns mortais, pode ser uma vida. Para alguns até, mais do que alguma vez viverão ou já viveram.
“Voltaste finalmente. Já há bastante tempo que não falávamos.”
Peço-te desculpa pela ausência.
“Perdeste-te algures pelo caminho?” — Esse tom de sarcasmo mal disfarçado indicia-me que já sabes a resposta, como é habitual. Não cedo à tentação e ignoro a pergunta.
Sorris. É bom ver-te assim de tão bom humor com tanta trapalhada que se passa no mundo. Pensei que estivesses com ar preocupado, ansioso ou até mesmo irado. Dizes-me que não há muito que possas fazer. As coisas tem que seguir o seu rumo. Estamos a colher o que semeámos. Bem sei, bem sei. Mas e os pequenos males do mundo? Aqueles que passam incógnitos dos jornais e televisões mundiais? As doenças e demais problemas dos homens comuns. Não fazes nada contra isso?
“Estás a falar da tua mulher…” — O meu olhar responde-te sem que seja preciso dizer uma palavra.
“Eu sei, eu sei. Não há justiça nenhuma nisso. Nem divina, nem terrena. É assim apenas. Por vezes este tipo de coisas, por mais injustas que pareçam — e muitas vezes o são — apenas servem para vos por à prova. Nem sempre serão provas de fé como muitos querem crer, mas serão sempre provas. Diz-me, que aprendeste nos últimos anos? Quantas foram as vezes que quiseste voltar a ser o que eras dantes e te encolheste perante as perspectivas de um futuro assustadoramente real e absurdo? E o que fizeste? É essa a tua prova. No dia em que tu e eu estivermos aqui pela última vez nesta condição como hoje estamos, nesse dia, irás compreender isso. Depois, mais tarde, quem sabe se não estarás tu aqui a falar com alguém que precise, tal como tu hoje…”
Eu sabia que ELE tinha razão. Eu sabia. E no fundo…
“É dificil, não é?”
ELE sabe sempre tudo…