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IV">Tomo IV

- Bom dia – dis­seste, assustando-me.
– Não Te espe­rava aqui. – res­pondi – É a pri­meira vez que vens ter comigo. A que devo esta honra?
– Nenhum motivo em par­ti­cu­lar. Vim saber como te sen­tes, depois da pro­va­ção des­tes últi­mos meses.
– Em rela­ção a isso… porquê? Que neces­si­dade havia para me faze­res pas­sar por isto tudo? Já não chega a minha mulher? Tam­bém pre­ci­sas que eu ado­eça e, para cúmulo, a minha mãe?
– Calma, calma. Sei que estás zan­gado. Afi­nal, não me pro­cu­raste nem uma única vez desde que esta fase da tua vida se ini­ciou. Mas posso-te garan­tir que não fui eu o res­pon­sá­vel directo pelo que se tem pas­sado ulti­ma­mente. Essen­ci­al­mente tem sido um con­junto de cir­cuns­tân­cias a que vocês gos­tam de ape­li­dar de aza­res. Herança gené­tica, peque­nas acções do dia-a-dia, tudo pode ter con­tri­buído para as efer­mi­da­des…
– Aza­res? – voci­fe­rei – Vens a minha casa dizer-me que são aza­res? Podes crer que estou zan­gado! Con­tigo, com o mundo, com isto tudo! Não havia neces­si­dade… – a minha voz esmo­re­ceu à medida que as lágri­mas se for­ma­vam no meu rosto.
– É muito “azar” junto. – disse, enfa­ti­zando a frase com o gesto típico das aspas, à laia de sar­casmo.
– Não disse que foram aza­res. – res­pon­deste, com a calma e sere­ni­dade que te carac­te­ri­zam – Foram um con­junto de cir­cuns­tân­cias a que VOCÊS cos­tu­mam de ape­li­dar de aza­res. Mas não te pre­o­cu­pes, não fico cha­te­ado con­tigo por esta­res assim tão zan­gado. Mas diz-me, como te tens sen­tido nessa tua demanda pela espi­ri­tu­a­li­dade?
Olhei para Ti com ar des­con­fi­ado. Ia perguntar-Te como sabias das minhas lei­tu­ras de obras budis­tas mas rapi­da­mente me dei conta que não há nada que não sai­bas. No fim de con­tas És omnis­ci­ente, omni­pre­sente e tudo isso.
– Con­fuso. – con­fes­sei – há mui­tas cor­ren­tes, há dema­si­a­das dife­ren­ças e, acima de tudo, há mui­tos con­cei­tos que ainda me são difí­ceis de assi­mi­lar dado que sou pro­duto de uma soci­e­dade e edu­ca­ções tipi­ca­mente capi­ta­lis­tas. Isto, claro, inde­pen­den­te­mente das minhas con­vic­ções polí­ti­cas. Estou ape­nas a referir-me às cren­ças e for­mas de enca­rar a fé e os homens.
Repa­rei que per­cor­rias com a vista os meus livros, ale­a­to­ri­a­mente depo­si­ta­dos nas estan­tes, esbo­çando um sor­riso oca­si­o­nal em cer­tas obras. Subi­ta­mente viraste a Tua aten­ção para mim, com ar sério e com tal inten­si­dade como nunca tinha sen­tido antes.
– Estás no cami­nho certo. Não te pre­o­cu­pes com as dúvi­das que pos­sas ter agora. Fazem parte da jor­nada para des­co­bri­res quem és e qual o teu lugar no uni­verso. Não importa o nome da cor­rente, a defi­ni­ção da reli­gião ou a forma como desig­nam as enti­da­des que vene­ram. Importa que apren­dam a ouvir a sua voz inte­rior. Como diria o teu recen­te­mente des­co­berto Dalai Lama, somos uni­ver­sos den­tro de uni­ver­sos. Nisso, ele está cor­recto. A nossa essên­cia é o átomo. Tu e eu e tudo o resto. Somos iguais, pares. Em última aná­lise, somos unos.
Ouvi per­plexo. Nunca me tinhas ofe­re­cido tama­nho dis­curso. Muito menos refe­rindo direc­ta­mente a ques­tão das reli­giões. Os meus olhos bri­lha­ram como estre­las qual cri­ança que vai ao circo a pri­meira vez e para a qual tudo é novo e mara­vi­lhoso. De cer­teza que tinha a boca aberta de espanto mas não me impor­tei. Como se fosse pos­sí­vel, aumen­tei a minha capa­ci­dade audi­tiva para que não per­desse uma única sílaba.
– Rela­ti­va­mente às doen­ças que te afec­ta­ram, a ti e aos teus, – O tom da tua voz tornou-se ainda mais sério – tens que enca­rar isto tudo como parte desse mesmo cami­nho. Não é algo que pos­sas con­tro­lar ou que pos­sas atri­buir cul­pas a alguém ou alguma coisa. Ao con­trá­rio do que se cos­tuma apre­goar, eu não decido o vosso des­tino. São vocês, com as esco­lhas do dia-a-dia, que deter­mi­nam o cami­nho a seguir. E por vezes esse cami­nho é sinu­oso, cheio de peri­gos e atri­bu­lado. Outras é suave e um sim­ples pas­seio. – Ali­gei­raste a pos­tura e o tom, con­ti­nu­ando – Mas não pen­ses que eu não estou por aqui ao vosso lado. Acompanho-vos em todas as vos­sas opções, sejam elas quais forem. Não há esco­lhas erra­das, ape­nas as vos­sas esco­lhas. Por vezes pode­rão parecer-vos erros gra­ves mas aca­bam por deter­mi­nar quem são. Quem és. Repara, caso não tives­ses seguido o teu cami­nho como tens feito, pro­va­vel­mente não terias opor­tu­ni­dade nem von­tade de ter estes peque­nos diá­lo­gos comigo. Esta­rei certo?
Res­pondi afir­ma­ti­va­mente com um pequeno ace­nar de cabeça. Claro que estás certo, pen­sei. Outra coisa não pode­ria ser. E quem sou eu para por isso em causa. O sal fez-se notar nos meus lábios. Levei a mão à cara para lim­par as últi­mas lágri­mas que ainda faziam o seu pró­prio cami­nho, tei­mo­sa­mente des­li­zando face abaixo. Entre um sor­riso dis­creto e um sus­piro con­tido disse-te um obri­gado que, embora pra­ti­ca­mente inau­dí­vel, era sen­tido. Sor­riste, agora como quem acaba de sair de um filme “bem dis­posto” e desa­pa­re­ceste como che­gaste. De sur­presa. Olhei para a estante à minha frente e peguei num livro, apa­ren­te­mente ao acaso. “O uni­verso num átomo” por Sua San­ti­dade o Dalai Lama. Esco­lha curi­osa, pen­sei, rindo-me…

III">Tomo III

- Des­culpa ter che­gado atra­sado. — Disse-Te enquanto me sen­tava cui­da­do­sa­mente nas rochas que esco­lhe­ras nesse dia para Te encos­ta­res. Pare­cia sim­ples olhando para a forma des­con­traida como esta­vas e, no entanto, demo­rei cerca de cinco minu­tos só para che­gar até Ti, num per­curso de dez metros.
Olhaste para mim, sor­rindo, como sem­pre — algo que nunca per­cebi bem porquê nem como — e fran­ziste meio sobro­lho, pelo menos assim me pare­ceu, que se tives­ses sobro­lho que se visse, esta­ria nesse momento fran­zido.
– Che­gaste atra­sado, bem sei, mas não tem impor­tân­cia. Ainda tens tempo de sobra para gas­tar. Aproveita-o como bem enten­te­res.
– Não vou por ai. — Res­pondi — Não quero entrar na con­versa em forma espi­ra­lada de “Quanto tempo tenho?” ou “Quando che­gará a minha hora”. Se o fizer entro em para­fuso e estouro o fusí­vel.
Sor­riste agora de forma mor­daz e decla­rada. Era fácil per­ce­ber quando sor­rias. A luz do sol ficava mais clara, se que é pos­sí­vel ter-se luz ainda mais clara que o branco da luz do sol — Pare­ces ter ama­du­re­cido desde a última vez que con­ver­sá­mos.
Olhei-te com ar des­con­fi­ado. Nor­mal­mente não cos­tu­mas ser assim a não ser que tenhas algo na manga. Não que tenhas man­gas, ou não. Sei lá. Não faço ideia, mas entendes-me.
– Pare­ces mais tu. — De novo, a sus­peita de algo mais do que sim­ples elo­gios reflectiu-se no meu sem­blante. — Que que­res dizer com isso? Não cos­tu­mas dizer algo desse cariz de forma tão gra­tuita. Que se passa? Há algo que deva saber?
– Vês? Até o teu voca­bu­lá­rio ama­du­re­ceu. “Cariz” não é algo que um pre­tenso “ado­les­cente de 34 anos” uti­lize no seu dis­curso habi­tual.
Raios! Mas que é que quer Ele dizer com isso? Estou com mais cabe­los bran­cos, é certo. na barba, nem se fala, mas… Que será que ele sabe que eu não sei?
De repente dei por mim a rir desal­ma­da­mente. Olhaste-me, de novo, tran­quilo e sereno, como sem­pre. Pelo menos como sem­pre eu Te vi. Soube que não per­gun­ta­ras por­que me estava a rir pois pro­va­ve­lemte já o sabe­rias de ante­mão. E eu a questionar-me de que sabe­rias Tu… Ape­nas TUDO, não é? Afi­nal de con­tas, não é suposto seres omni… omnis­ci­ente?
– Não… — Dis­seste bai­xi­nho. — Sei o que sei por serem ver­da­des uni­ver­sais mas não sei de todas as ins­trín­se­cas e com­ple­xas aven­tu­ras da con­di­ção humana, por exem­plo.
– Como assim? Des­culpa, mas agora tens que Te expli­car!
– Calma, eu explico. Por exem­plo, eu sei o que o uni­verso tem pla­ne­ado, tudo o que se irá suce­der com os astros, como e quando deter­mi­na­das estre­las se irão auto-destruir no belo espe­tá­culo a que ape­li­dam de Super­No­vas. Sei tam­bém como estará o clima nos pró­xi­mos milé­nios. No entanto, e isso é muito impor­tante, não sei o que dirás ama­nhã de manhã às tuas filhas quando estas acor­da­res. Quer dizer, faço uma ideia por te obser­var dia­ri­a­mente, a ti e a todos os outros, mas há cer­tas coi­sas que só a vocês com­pete deci­dir e, como tal, me são com­ple­ta­mente des­co­nhe­ci­das. Desta forma, man­te­nho a impar­ci­a­li­dade neces­sá­ria, a arbi­tra­ri­e­dade dese­jada e não me abor­reço…
– Ouve-me, disse. Lembrei-me por­que vim aqui hoje. Não o fizera antes por­que a raiva tinha tomado conta de mim e, durante um largo período de tempo, fiz de Ti o meu alvo pre­fe­rido. Ainda assim, pre­ciso de te per­gun­tar porquê. Porquê? Já não bas­tava as difi­cul­da­des de ser­mos como somos e de tra­zer­mos para o pre­sente o peso de uma vida com­plexa e por vezes sem grande sen­tido? Não basta ter que lutar con­tra os meus fan­tas­mas e os dela ao mesmo tempo? E por­que ela e não eu? Mais, por­que naquele momento? Quando deve­ria ser algo tão belo, quase ange­li­cal… Porquê?
– Lamento, mas não te posso res­pon­der a todas essas ques­tões. Se o fizesse esta­ria a ser injusto con­tigo…
– Injusto? Que­res mais injus­tiça do que ser diag­nos­ti­cada com can­cro de mama na semana em que damos à luz o nosso pri­meiro filho?
– Sim, injusto. Ima­gina sabe­res exac­ta­mente as res­pos­tas a todas as tuas per­gun­tas. No entanto não podes trans­mi­tir nada a nin­guém. De que te ser­vi­ria o conhe­ci­mento se não pudes­ses uti­li­zar para con­so­lar a tua mulher? Para que lida­res com o tor­mento de teres conhe­ci­mento sem pode­res par­ti­lhar com quem te rodeia? E por último, como te disse, há cer­tas coi­sas que deixo ao acaso, se é que de aca­sos pode­mos falar. Diga­mos que as con­di­ções esta­vam cri­a­das. As esco­lhas são vos­sas. Se toma­ram deter­mi­na­das deci­sões, se esco­lhe­ram deter­mi­na­dos cami­nhos, isso é que cons­trói o vosso des­tino, com as peque­nas peças que vão apa­nhando pelo cami­nho… No teu caso, podes perguntar-te, como sei que o fazes, se não tives­sem levado a gra­vi­dez avante, tal­vez o tumor não se tivesse desen­vol­vido. Pensa antes assim, se não tives­sem levado a gra­vi­dez avante, tal­vez o tumor não tivesse sido detec­tado a tempo…
– Per­cebo o que que­res dizer, mas tem sido tão difi­cil… Não é só lidar com os pro­ble­mas finan­cei­ros e as dis­cus­sões idi­o­tas que se geram á conta disso. São todos os dias que pas­sa­mos a ten­tar fazer o nosso melhor e, na mai­o­ria dos casos, parece sim­ples­mente não che­gar. As miu­das que ber­ram, a casa sem­pre num caos, o dinheiro que se esgota e ainda nem vamos a meio do mês. Os tru­ques e quase magia que temos que fazer para ter comida na mesa durante o período em que esta­mos “lisos”. Os dis­pa­ra­tes que faço, mesmo sabendo as reper­cur­sões no orça­mento fami­liar. O jar­dim zoo­ló­gico que temos den­tro de casa. A saúde da minha mulher. A minha saúde. Os receios pela saúde das minhas filhas. O ten­tar sin­grar numa empresa ape­nas por­que somos obri­ga­dos a ter um nível sala­rial ele­vado para poder pagar as con­tas. Os pro­ble­mas de sono resul­tan­tes disto tudo e que me levam a ter o emprego na corda bamba… Enfim, todos os dias são uma aven­tura, sem­pre com as mes­mas per­so­na­gens, sem­pre com o mesmo guião, em que sem­pre ten­ta­mos arran­car os aplau­sos ao fim do dia e nem sem­pre os ouvi­mos…
– Sim, eu sei. Mas congratula-te por, pelo menos, ten­ta­res. Há quem, pura e sim­ples­mente, desista…
Durante alguns minu­tos ficá­mos ali, sen­ta­dos no pro­mon­tó­rio onde sem­pre nos encon­tra­mos, embora saiba que não inte­ressa real­mente qual o rochedo onde te pro­cure, estás sem­pre lá. Basta olhar. Levantei-me, final­mente. Não sabia quanto tempo tinha estado ali mas tam­bém não era impor­tante. Afi­nal ainda tinha algum tempo de sobra e nunca é demais falar com Ele. Não se pode con­si­de­rar isso como tempo per­dido. Segui o meu cami­nho de sem­pre, de regresso ao único sítio que conheço como casa, com gri­tos, ber­ros, cho­ros de cri­ança e baru­lhos de ani­mais diver­sos entre­co­ta­dos com as dis­cus­sões dia­rias de uma famí­lia que luta pela vida, pelo amor à vida. Que luta por amor. Um dia des­tes con­ver­sa­re­mos um pouco mais, quando Te vol­tar a pro­cu­rar no “nosso” pro­mon­tó­rio, ou nou­tro rochedo qualquer…

II">Tomo II

Sentei-me ao teu lado. De novo. Mais uma vez. Encontrei-te onde espe­rava. Aqui. Esta­vas como sem­pre esti­veste. Calmo, sereno. Ficá­mos ali, sem dizer nada, hora após hora. Senti que me olha­vas. Curi­oso, tal­vez. Era a pri­meira vez que não abria a boca estando con­tigo. Ali. Fosse onde fosse. Não pen­sei que fos­sem neces­sá­rias pala­vras, pen­sei para comugo. Sor­riste. Olhaste para o livro que tra­zia na mão. Res­pos­tas, era o título. O autor, Dalai Lama. Sor­riste mais uma vez. Foi então que dis­seste: “Alegra-me saber que pro­cu­ras res­pos­tas e não te limi­tas a colo­car ques­tões ao vento.” Olhei para ti pela pri­meira vez naquele dia. “Não é fácil, pois não?” Sim, tens razão, como sem­pre. Ainda assim há sem­pre qual­quer coisa por res­pon­der. Mesmo quando tudo nos parece claro. Mesmo os recan­tos mais negros da nossa alma. Ainda assim, há per­gun­tas sem res­posta. “O que é que que­rias? Se tudo fosse assim, como pre­ten­dem, não fazia sen­tido estar aqui, con­vosco. Não tenho a res­posta para tudo, ape­nas vos posso aju­dar a encon­trar o cami­nho certo. E, como verás, não sou o único a afirmá-lo.” — E olhou mais uma vez para o livro que tra­zia naquele dia. Olhei tam­bém. Abri-o ao acaso e li uma pas­sa­gem apa­ren­te­mente des­pro­vida de con­texto. Ouviste com aten­ção, olhar sereno sobre o hori­zonte. Não comen­taste, nem sequer te vi mexer um milí­me­tro. “Não tens nada a dizer?”, per­gun­tei. “Que que­res que te diga? Que está certo? Que está errado? Já me devias conhe­cer mini­ma­mente para sabe­res que não julgo os homens. Nem mesmo aque­les cuja ilu­mi­na­ção em rela­ção às coi­sas do mundo e do espí­rito está mais alta do que a mai­o­ria. Dalai Lama é um ser humano sábio. Ele sabe o que diz e por­que o diz. Da mesma forma que tu o sabe­rias se dei­xas­ses de lado as anco­ras da vida quo­ti­di­ana e a futi­li­dade de advém da tua forma de vida ‘pro­gres­sista’ e ‘moderna’. E isso aplica-se a qual­quer ser. Repara, os giras­sóis giram ao longo do dia em busca do calor do sol. Nada mais lhes inte­ressa. Tem esse pro­pó­sito único na vida. Os sal­mões nadam milha­res de qui­ló­me­tros para deso­va­rem algu­res junto à nas­cente de um rio e mor­re­rem a seguir. É esse o seu pro­pó­sito na vida. É isso que vos faz falta como seres uni­ver­sais. Des­co­brir o vosso pro­pó­sito na vida. Por isso pas­sam os vos­sos anos na terra em cons­tante tur­bi­lhão emo­ci­o­nal em busca de algo quem nem vocês bem ao certo. E final­mente, no momento em que dei­xam esta exis­tên­cia, nem sem­pre com­pleta, nem sem­pre con­cluída, nem sem­pre satis­fa­tó­ria, nem sem­pre vivida, só nesse momento têm um pequeno vis­lum­bre do vosso pro­pó­sito. Só nesse momento. E então num último sopro de vida, ten­tam dei­xar a men­sa­gem a quem vos acom­pa­nha naquele momento. Na mai­o­ria das vezes não o con­se­guem. Por­que aca­bam per­di­dos, sozi­nhos na mul­ti­dão.” Olhou para mim de frente. “Vale a pena viver assim?” Estra­nhei a per­gunta, que não sou­besse pen­sa­ria que… “Não é nada disso. Pergunto-te se vale a pena viver assim para que tenhas mais uma esco­lha no teu cami­nho. Mas a esco­lha, em última aná­lise, será tua e só tua. E por hoje já chega, deixa-me medi­tar. Por vezes cansas-me mais tu do que um ter­ra­moto na India.” E eu fui. Só eu mesmo

Tomo I

Olá.” — dizes-me tu com ar des­pre­o­cu­pado. Como se nada te afec­tasse. Logo a ti, que tudo tem que for­ço­sa­mente afec­tar. Olhas para mim como se nos tives­se­mos cru­zado ainda ontem e dizes:

Estás mais velho.”.

Respondo-te cho­cado que já se pas­sa­ram 8 anos.

Já assim tan­tos? Parece que foi ontem.”

Pois, para alguém da tua idade é natu­ral que não seja muito. Para nós, comuns mor­tais, pode ser uma vida. Para alguns até, mais do que alguma vez vive­rão ou já viveram.

Vol­taste final­mente. Já há bas­tante tempo que não falávamos.”

Peço-te des­culpa pela ausência.

Perdeste-te algu­res pelo cami­nho?” — Esse tom de sar­casmo mal dis­far­çado indicia-me que já sabes a res­posta, como é habi­tual. Não cedo à ten­ta­ção e ignoro a pergunta.

Sor­ris. É bom ver-te assim de tão bom humor com tanta tra­pa­lhada que se passa no mundo. Pen­sei que esti­ves­ses com ar pre­o­cu­pado, ansi­oso ou até mesmo irado. Dizes-me que não há muito que pos­sas fazer. As coi­sas tem que seguir o seu rumo. Esta­mos a colher o que semeá­mos. Bem sei, bem sei. Mas e os peque­nos males do mundo? Aque­les que pas­sam incóg­ni­tos dos jor­nais e tele­vi­sões mun­di­ais? As doen­ças e demais pro­ble­mas dos homens comuns. Não fazes nada con­tra isso?

Estás a falar da tua mulher…” — O meu olhar responde-te sem que seja pre­ciso dizer uma palavra.

Eu sei, eu sei. Não há jus­tiça nenhuma nisso. Nem divina, nem ter­rena. É assim ape­nas. Por vezes este tipo de coi­sas, por mais injus­tas que pare­çam — e mui­tas vezes o são — ape­nas ser­vem para vos por à prova. Nem sem­pre serão pro­vas de fé como mui­tos que­rem crer, mas serão sem­pre pro­vas. Diz-me, que apren­deste nos últi­mos anos? Quan­tas foram as vezes que qui­seste vol­tar a ser o que eras dan­tes e te enco­lheste perante as pers­pec­ti­vas de um futuro assus­ta­do­ra­mente real e absurdo? E o que fizeste? É essa a tua prova. No dia em que tu e eu esti­ver­mos aqui pela última vez nesta con­di­ção como hoje esta­mos, nesse dia, irás com­pre­en­der isso. Depois, mais tarde, quem sabe se não esta­rás tu aqui a falar com alguém que pre­cise, tal como tu hoje…”

Eu sabia que ELE tinha razão. Eu sabia. E no fundo…

É difi­cil, não é?”

ELE sabe sem­pre tudo…

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