O ranger suave do soalho amadurecido pelas inúmera camadas de cera anunciavam a tua chegada.
Deixei-me ficar de olhos fechados, à espera, mais uns minutos à espera.
Senti o teu perfume intensificar-se á medida que entravas no quarto e despias a roupa, deixando-a cair num trilho anunciado.
O teu corpo, ainda quente, deslizou para dentro dos lençóis e procurou o meu. Mas eu não estava lá.
Sentaste-te na cama, acendendo a luz de cabeceira, num movimento sincronizado, enquanto o teu olhar percorria o quarto. Mas eu não estava lá.
De novo os passos, agora mais fortes, apressados, faziam ranger a tábuas gastas de tanto andar.
Uma a uma, percorreste todas as divisões da casa, deixando todas as luzes e candeeiros acesos pelo caminho. Terias receio de te perder no escuro, talvez. Mas eu não estava lá.
Finalmente agarraste o telefone já com a força de uma fúria anunciada, levemente temperada de medo. Vi-te marcar o meu número. Ouviste o telefone tocar. Uma e outra vez. Uma e outra vez. Mas eu não estava lá.
Procuraste então desesperada pelo número de alguém conhecido. Alguém que pudesse dar-te uma pista do meu paradeiro.
Escritório. Não, eu não estava lá.
Familiares. Não, eu não estava lá.
Amigos da bola, não fosse o caso de ser dia de jogo e eu não te ter avisado. Mas não, eu não estava lá.
Deixaste-te cair na cama, desta vez já sem forças. Já não tinhas sequer lágrimas. Na tua cabeça, todos os cenários e possibilidades, ainda que remotas, desenrolavam-se à velocidade de um velho filme a preto e branco.
Mas em nenhum deles me encontraste.
Batem à porta. Em sobressalto, percorres a distância que te separa da porta de entrada num ápice, qual velocista à beira de um recorde mundial, devidamente dopada pelo turbilhão de emoções. Ao abrir apercebes-te do piscar estroboscópico característico das viaturas oficiais.
– Boa noite, minha senhora. A senhora é…
Já não ouviste mais nada. Não era preciso. Vestiste o casaco, pegaste nas chaves do carro e seguiste o veículo à tua frente, em passo lento.
O frio da madrugada que se aproximava deixava-se romper pelos poucos pontos de aconchego providenciados pelos focos de luz esporádicos que ladeavam a entrada do hospital.
Entraste atrás dos agentes que te serviam de escolta. Depois de percorrer o que te pareceu uma eternidade, chegaste ao fim de um corredor particularmente mórbido pela sua iluminação e escritos garrafais. “MORGUE“
Abriste a porta, mesmo antes de te dizerem para entrar. Os poucos passos no chão de mármore ecoaram na sala ampla e aparentemente vazia.
Um homem de bata branca e ar adoentado entrou por outra porta, que até então não tinhas notado.
Dirigiu-se para a parede repleta de gavetas de metal. Procurou um número, consultando um bloco que trazia consigo. Finalmente a gaveta deslizava deixando a descoberto um vulto, tapado por um lençol.
Aproximaste-te relutantemente. O homem da bata destapou o rosto do vulto. os teus olhos, já de novo mareados, abriram-se ainda mais.
Saiste a correr da sala sem dizer palavra. Um dos agentes aproximou-se:
– Preciso que me confirme…
– Não! Não é ele! Aquele que ali está não é o meu marido! — Gritaste soluçando.
– Tem a certeza? — (A subtileza da autoridade surpreende-me a cada dia)
– Não… Sim… Tenho a certeza de que não é ele.
Afinal, eu não estava lá…
De regresso a casa, ainda com o sal das lágrimas marcados no rosto, deixaste embalar na banheira, onde repousas habitualmente depois de um dia particularmente stressante.
O som de um vidro partido traz-te de volta á realidade. Sais da banheira meio à pressa e pisas os cacos do copo que acabara de cair da tua mão. Apesar da dor, o alívio de não teres que lidar com um intruso depois dos acontecimentos dessa noite serviu de calmante.
Ao limpar a ferida olhaste casualmente para a porta e deixaste escapar um grito. Eu estava lá.
- Afinal… que se passa?
Olhaste-me como se tivesses visto um fantasma. Correste para mim, punhos fechados como quem desfere golpes sem saber bem porquê, acabando por me abraçar. Chorando copiosamente disseste:
– Onde estiveste que te procurei por toda a parte?
– Como? — respondi ainda sem saber bem o que se passara.
– Liguei para ti, para os teus pais, amigos, colegas. Liguei para toda a gente e ninguém sabia de ti. Onde estavas?
– Estava aqui, à tua espera, como habitualmente…
Afastaste o rosto do meu ombro, já molhado de tanta lágrima e, fitando-me de modo incrédulo.
– Mas… Como?… Eu… procurei-te por toda a parte. Percorri a casa de um canto ao outro. E tu não estavas!…
Abracei-me a ti como se fosse o primeiro ou último abraço das nossas vidas. Sabia que tinha que to contar. Sabia que este dia chegaria, mais cedo ou mais tarde. Mas sempre desejara que fosse sempre mais tarde. Muito mais tarde.
Sentei-te na cama e ajoelhei-me perante ti. Limpei-te as lágrimas que ainda te corriam pela face com a mão enquanto teci um sorriso semi-paternalista.
– Ouve. Tenho que te contar uma coisa. Preciso que prestes atenção.
– Afinal podes dizer-me o que se passa? — O teu tom de voz agravara-se em milésimos de segundo. Incrível como as mulheres conseguem estas proezas. Mas não havia volta a dar. Tinha que ser agora. Agarrei-te os braços, suavemente, mas prendendo-te á minha frente, não fosses tu sair desalmada como seria de esperar.
– Calma. De facto eu não estava lá. Onde tu estavas. Onde tu estás. Ou por outra, não estava nem estou. Nem eu nem tu estamos aqui, onde estamos agora.
– Ai que não estás a fazer sentido nenhum. Estiveste nos copos outra vez? Sabes bem o que eu penso dessas andanças…
– Não, escuta. Para de falar, fecha os olhos e escuta. Depois diz-me o que ouves.
Fechaste os olhos para mim e deixaste-te ficar, muito quieta, quase sem respirar, durante uns largos segundos.
– Então?…
– Ouço um zumbido. Pelo menos parece um zumbido. Que som é este? Tens algum computador ligado no escritório?
– Não… Continua a ouvir. Concentra-te.
Momentos depois abriste os olhos muito abertos e ficaste muda a olhar para mim. Abraçaste-me como se fosse o primeiro e último abraço. Soube nesse segundo que entenderas o que se passava.
De novo com lágrimas nos olhos, deixaste que te deitasse na cama, tapando-te com toda a ternura possível.
Deitei-me ao teu lado e pousaste a cabeça no meu peito.
– Diz que me amas… — Pediste-me baixinho.
– Amo-te muito, meu anjo.
Deslizaste então para um sono profundo. Um sono de onde sabias não poder voltar. O teu último sono.
O zumbido foi subindo de intensidade e o bleep característico das máquinas acompanhou-o.
Quando abri os olhos, as formas enevoadas estavam ainda em volta da marquesa ao meu lado. Uma enfermeira observou-me rapidamente, sorrindo ao aperceber-se que eu estava bem.
Mas o som contínuo da máquina anunciava aquilo que já sabia. O momento em que adormeceste nos meus braços para sempre. E eu estivera sempre lá.