Não, não me faças suplicar por algo em que já não acredito. Eu sei que devia ter tomado uma atitude antes… Sei perfeitamente o que tens feito em prol da nossa família. Desculpa, sim, tua família. Eu já me descartei há muito tempo. Como? Não percebo. Queres que eu esteja completamente ausente durante uns tempos? Mas, e as crianças?… Sim, tens razão. Eu sei que tens razão. Mas não queria que elas se desabituassem completamente da minha presença. Desculpa. Sim. Não, desculpa por estar a insistir neste assunto, o resto não tem desculpa. Pois, compreendo. E que queres que diga agora? Não posso apagar o que se passou. Sinceramente, e perdoa-me se te dói ouvir isto, mas nem sei bem se quero apagar o que se passou. Já deveriamos ter percebido muito antes. Havia tantos sinais evidentes. Não? Claro que sim. Comecei a trabalhar mais. Deixámos de fazer amor. As crianças? Essas pestinhas dormem sempre que nem uma pedra. E para mais, nunca tinha sido problema antes. O que foi que mudou? Não, não precisas de explicar nada. Ambos sabemos que chegou a altura de começar uma nova etapa nas nossas vidas. Quem sabe? Um dia mais tarde poderemos reencontrar conforto nos braços um do outro. Sim, sei. Sou um lírico, pois… Está bem então. Para a semana encontramo-nos no advogado. As crianças ficam na tua mãe certo? Preferes que te venha buscar? Adeus amor… Desculpa, força de hábito…
Category Confissões II
Tomo Terceiro — (Des)encontros
- Olá, como estás? Que tens feito? Ah, sim?… Olha, estou a ligar-te para te pedir desculpa por não ter ligado naquela altura… Sim, eu sei. É que estive atrapalhado com trabalho e depois acabou por não se proporcionar, entendes? Sim, compreendo. Tens toda a razão. Para te compensar estava a pensar convidar-te para jantar, que tal? Depois podiamos ir beber um copo a qualquer lado. Sim? Hoje está bom para ti ou é muito tarde? (risos) Claro, vou-te buscar a que horas? 19h30… Óptimo. Até logo então…
- Está querida? Olha desculpa-me mas surgiu um imprevisto aqui no escritório e vou ficar até tarde… Eu sei, eu sei… É sempre a mesma coisa. Mas sabes como é, se eu não fizer, ninguém faz e depois eu é que levo com as culpas. Eu prometo que te compenso. Olha, como estão as crianças? Manda-lhes um beijo por mim. Não esperes acordada, precisas do descanso. Um beijo. Amo-te…
Tomo Segundo — Sem Rumo
Depois de tudo, o vazio instala-se. Depois, mais nada… Chego a casa, que não sinto como minha. Reconheço quem me cumprimenta, afago a cabeça das crianças como se de um animal de estimação se tratasse. Refugio-me nos meus afazeres mentais. O ócio é o meu melhor amigo. Desculpo-me com um longo dia de trabalho. Sinto a corrosão desfazer-me o peito. Sangro por dentro. Tenho que sair outra vez. Não consigo. Contenho as lágrimas quando me perguntam se posso ajudar com os trabalhos de casa. Pedem-me para brincar. Num rasgo de masoquismo associado a uma ponta de loucura, sorrio, pensando: “Isso foi o que andei a fazer…”. Desculpo-me com mais trabalho. Tenho que comprar tabaco, já agora. E saio sem jantar. Ao fechar a porta atrás de mim, não olho para trás. Não quero ver aquela gente pequenina, sangue do meu sangue, seguir-me com os olhos e perguntar: “O papá vai embora?”. Sinceramente, embora vou todas as vezes que passo da porta para fora. A diferença é que acabo por voltar. Hoje é mais um desses dias, mas nunca sei se regresso…
Tomo Primeiro — A menina
Eras ainda menina. Eu, perdido na vida, bebi do teu corpo a que deixara pelo caminho. Deixei-te só, numa cama que não era tua.
E, entre um e outro cigarro, despedi-me com um acenar mudo. Não fiquei para te ouvir chorar.
Nua, inerte e fria, deixas-te de ser menina.
Só porque disse que te queria. Mas sabes, não era para sempre. Não pensei que te importasses. Não pensei, simplesmente. Era eu. Eras tu. Os dois corpos num, depois do álcool. Depois do sexo. Depois de nada. Não sei o teu nome. Nunca o soube. Nunca quis saber. Fica o adeus de uma anunciada partida. Para sempre. Para mim. E descansa. Apesar de tudo, ficarei com a tua imagem de menina que se deitou comigo e não da mulher, ao lado da qual não quis acordar…