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Zerumbete ou Zumba…

Ricardo era uma cri­ança irre­qui­eta men­tal­mente. Ao comum dos mor­tais, um vici­ado no ócio de estar o máximo de tempo pos­sí­vel fechado no seu quarto e isolar-se do mundo que o rode­ava. Para mui­tos, um exem­plo típico do falhado em pro­jecto, que nunca iria con­se­guir cons­truir nada de seu, nada de novo. Mas Ricardo não se dei­xava ren­der aos pra­ze­res da per­guiça, antes pelo con­trá­rio. No seu pequeno mundo, bebendo todo o conhe­ci­mento que con­se­guisse apa­nhar, Ricardo ali­men­tava a alma. O corpo, esse, era ali­men­tado pela sua mãe, que lhe pre­pa­rava os seus pra­tos favo­ri­tos. Afi­nal de con­tas ele estava doente, ou pelo menos era isso que ele que­ria que a sua mãe pen­sasse. Para tal, já tinha aper­fei­ço­ado a arte de aque­cer o ter­mó­me­tro na lâm­pada  do seu can­de­eiro da mesi­nha de cabe­ceira, tudo com um tim­ming ao segundo, cari­ando ape­nas con­so­ante a tem­pe­ra­tura que ele dese­java que mar­casse o velho ter­mó­me­tro de mer­cú­rio. Mas, um dia, sem que nada o fizesse espe­rar, quando Ricardo estava ape­nas a dois volu­mes de ter­mi­nar a lei­tura da sua Lexi­co­teca — 18 volu­mes de conhe­ci­mento geral, acom­pa­nha­dos de 4 sobre a lín­gua por­tu­guesa e mais uns quan­tos dedi­ca­dos à Flora e Fauna mun­dial — a mãe de Ricardo entrou no seu quarto com um estra­nho sor­riso que exa­lava con­fi­ança. Como se ela sou­besse de algo que ele des­co­nhe­cia. E, sem que nada o fizesse pre­pa­rar, um objecto tirado de um filme de fic­ção cien­tí­fica, uma pis­tola de raios, um laser, um… não. Ape­nas um ter­mó­me­tro. Um ter­mó­me­tro elec­tró­nico. Arcaico, aos parâ­me­tros de hoje, mas futu­rista há 30 anos atrás. E foi assim, com um ter­mó­me­tro elec­tró­nico, que Ricardo ficou sem saber o sig­ni­fi­cado de pala­vras como Zerum­bete ou Zumba

Hold still

In this lit­tle town
cars they don’t slow down
The lonely peo­ple here
They throw lonely sta­res
Into their lonely hearts

I watch the traf­fic lights
I drift on Christ­mas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But girl you’re so far away

Oh, hold still for a moment and I’ll find you
I’m so close, I’m just a small step behind you girl
And I could hold you if you just stood still

I jaywalk through this town
I drop lea­ves on the ground
But lonely peo­ple here
Just gaze their eyes on air
And miss the autumn roar
I roam through traf­fic lights
I fade through Christ­mas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But man you’re so far away

Oh, I’ll hold still for a moment so you’ll find me
You’re so close, I can feel you all around me boy
I know you’re somewhere out there
I know you’re somewhere out there

Oh, hold still for a moment and I’ll find you
You’re so close, I can feel you all around me
And I could hold you if you just stood still
Oh, I’ll hold still for a moment so you’ll find me
I’m so close, I’m just a small step behind you
I know you’re somewhere out there
I know you’re somewhere out there
I know you’re somewhere out there

David Fon­seca — You­tube Video

Ontem, Hoje, Amanhã

Tra­zem demais memó­rias, as pala­vras. Trazem-te de volta e ao mesmo tempo levando-te. É sem­pre fácil escre­ver que te amo. E que tudo ficará bem, em tom suave e calmo…
E a minha calma apa­rente deixa uma marca de cor­ro­são na minha alma. E a minha alma, o meu ser, tudo o que sou se pergunta:

E se depois des­co­bres que estás na lama, que todas as tuas pala­vras arras­ta­ram numa tor­rente de solu­ços con­ti­dos e lágri­mas dis­far­ça­das pelo fumo dos dias.
Cor­res para onde te sen­tes bem, a tua base, o teu refú­gio. Cho­ras, abres as com­por­tas e solu­ças com­pul­si­va­mente. Dei­xas a cor­rente esgotar-se enquanto te esgo­tas tam­bém.
Mas, e se não tens para onde ir? O teu refú­gio não é refú­gio. As tuas bases são agora areias move­di­ças onde ten­tas movimentar-te o sufi­ci­ente para não te dei­xa­res afun­dar.
Cor­res, mas sem des­tino. Dei­xas que o ar da cidade te dis­farce os solu­ços e que a soli­dão da fuga te esconda, à vista de todos.
E depois? Um copo num bar onde encon­tras quem conhe­ces e que te conhece. Onde podes dei­xar sair a tua per­sona social e fin­ges que nada se passa.
São estes os teus dias, as tuas noi­tes. Não te dei­xes dor­mir. Não dei­xes que te acor­dem.
Esconde a dor, no fundo de um copo, num soluço, no sal das lágri­mas.
E deixa-te levar…”

Chega um novo dia, acordo como se a noite pas­sada não fosse nada de impor­tante. E no fundo, não o é. Sim­ples­mente por­que é igual a tan­tas outras e como a de hoje será.
Ama­nhã… Ama­nhã logo se verá…

Só a tua presença me completa

Hoje vesti a camisa que penso que gos­tas de ver quando nos encon­tra­mos. Não sei qual o motivo mas sem­pre me pare­ceu que gos­tas­ses de me ver nesta. Idi­o­tice, tal­vez. Mas vesti-a a pen­sar que me iria encon­trar con­tigo. E, no fim de con­tas, não acon­te­ceu esse encon­tro, já ante­ci­pado e ansi­ado. Impre­vis­tos, naturalmente.

Não fiquei pre­o­cu­pado, cha­te­ado nem sen­tido com isso. Mas deu-me a enten­der duas coi­sas. 1º Pode­mos ves­tir a camisa que pen­sa­mos que gos­tem de ver e nunca ser vis­tos. 2º Apercebi-me que, com tanta coisa que temos em comum, há muita mais que des­co­nhe­ce­mos — ou pelo menos des­co­nheço — e que nem sequer temos em con­junto ou partilhado.

Senão, veja­mos… Lembras-te a data em que nos conhe­ce­mos? Con­fesso que não. Tenho ideia do ano e da esta­ção do ano e pouco mais… Lembras-te do que ves­tia nesse dia? Eu recordo-me vaga­mente de uma cami­sola tua, de uma caneta e um ar con­di­ci­o­nado… E tu? E alguma vez tive­mos uma música que pudés­se­mos ape­li­dar de “nossa”? Mais, haverá algu­res uma única foto­gra­fia nossa, jun­tos? E, aparte do que venho cons­ta­tando dos nos­sos encon­tros espo­rá­di­cos, os nos­sos gos­tos até nem são assim tão comuns. Habi­tu­al­mente não ouço a mesma música que tu, não vejo os mes­mos fil­mes, e pro­va­vel­mente nem leio os mes­mos livros.

No entanto, mesmo com tanta dis­pa­ri­dade, só a tua pre­sença me completa.

Da raiva…

Ah! A raiva que se acu­mula no peito e a gar­ganta que incha late­jando. A von­tade de gri­tar ao mundo e de sair. Fugir de quem somos. Nem que seja por um momento.

Can­sado de gri­tar em silên­cio. Can­sado de merda. Can­sado de lágri­mas. Can­sado de tanta raiva con­tida. Can­sado de tanto cansaço.

Dei­tar cá para fora as entra­nhas. Deitá-las ao sol e dei­xar que quei­mem. Que cozam. E depois perder-me num banho de mar eterno.

Fugir ao paraíso com blas­fé­mias. Optar pelas pro­fun­de­zas. Tudo para me esque­cer que existo, aqui, agora.

Mas a raiva, essa teima em não me dei­xar em paz. Pre­ciso de um escape. De um saco de boxe onde des­car­re­gar. Em sen­tido figu­rado. Em sen­tido lato.

Só depois, deixando-me aban­do­nar ao deses­pero, me entrego. Até lá, dei­xar que a raiva me car­re­gue e sub­sis­tir às suas custas.

Serei cobarde? Con­cer­teza. Mas palhaço? Nunca! Com a raiva que se enraiza ganha­rei for­ças para me sol­tar da escravidão.

Do nexo…

O nexo das coi­sas, das memó­rias, das fra­ses des­pre­o­cu­pa­das nas pre­ten­sas poe­sias que te escrevo, ainda que de forma velada, para que todos os que já sabem pos­sam fin­gir não saber.

O nexo de poder­mos cau­sar bur­bu­ri­nho só pelas con­fis­sões, ora cho­can­tes, ora des­la­va­das em lágri­mas que já tei­mam em secar mesmo antes de che­gar às faces do rosto.

O nexo de poder­mos sen­tir e gri­tar por­que sen­ti­mos quando expla­na­mos a nossa vida em ver­são digi­tal de diá­rio fal­sa­mente privado.

O nexo do desejo. O nexo da sau­dade. O nexo do sexo. O nexo da liber­dade. O nexo de um beijo.

Qual será o nexo que me dei­xará satis­feito, por mais des­co­nexo que o nexo seja?

Essa será uma per­gunta para a qual a res­posta não tem nexo…

A vida como deveria ser

A vida deve­ria ser apaixonarmo-nos todos os dias, mesmo se fosse pela mesma pessoa.

A vida deve­ria ser todos os por do sol do mundo a aque­cer os fins de tarde naquele pri­meiro encontro.

A vida deve­ria ser poder dizer o que nos vai na alma, sem pre­juízo para ninguém.

A vida deve­ria ser a liber­ta­ção dos sonhos sem que a rea­li­dade atrapalhe.

A vida deve­ria ser tudo o que a vida tem para nos ofe­re­cer, sem ter que tirar a ninguém.

A vida, como deve­ria ser, não deve­ria ser o que dela faze­mos, mas deve­ría­mos fazer dela o que ela nos qui­sesse dar.

Lady Antebellum — Need you now

Picture perfect memories,
Scattered all around the floor.
Reaching for the phone cause, I can't fight it any more.
And I wonder if I ever cross your mind.
For me it happens all the time.

It's a quarter after one, I'm all alone and I need you now.
Said I wouldn't call  but I lost all control and I need you now.
And I don't know how I can do without, I just need you now.

Another shot of whiskey, can't stop looking at the door.
Wishing you'd come sweeping in the way you did before.
And I wonder if I ever cross your mind.
For me it happens all the time.

It's a quarter after one, I'm a little drunk,
And I need you now.
Said I wouldn't call but I lost all control and I need you now.
And I don't know how I can do without, I just need you now.

Yes I'd rather hurt than feel nothing at all.
It's a quarter after one, I'm all alone and I need you now.
And I said I wouldn't call but I'm a little drunk and I need you now.
And I don't know how I can do without, I just need you now.
I just need you now.
Oh baby I need you now.
http://www.youtube.com/watch?v=3ctfNh0j9OI

E se?…

E, se um dia, ao acor­dar, o mundo esti­vesse no mesmo lugar. O sol nas­cesse no mesmo ponto do hori­zonte recor­tado pelos edi­fí­cios da peri­fe­ria. O som dos pás­sa­ros pri­ma­ve­ris se ouvisse como fundo a uma cidade que acorda, tal como todos os dias. O fumo dos esca­pes per­fu­masse os pas­sos que faze­mos a cami­nho dos nos­sos empre­gos e esco­las. As buzi­nas pon­tu­as­sem o som dos moto­res com peque­nos deta­lhes har­mó­ni­cos. E o res­pi­rar fosse, como habi­tu­al­mente, uma suces­são de movi­men­tos intrín­se­cos à nossa exis­tên­cia. E, se um dia, tudo isso fosse assim? Dese­ja­ría­mos algo novo?

E, se nesse mesmo dia, qui­sés­se­mos que algo esti­vesse dife­rente. Algo, ape­nas algo. Nem que fosse o céu estar vio­leta ou as árvo­res apresentarem-se com folha­gem laranja e azul. Os car­ros andas­sem para trás ou as buzi­nas soas­sem a gatos com tosse. Que o cami­nho que cal­ca­mos todos os dias se tor­nasse em relva (mesmo que sin­té­tica) ou que o ar que res­pi­rás­se­mos pas­sasse a ser cons­ti­tuído 80% por hélio e as nos­sas vozes soas­sem todas a Rato Mic­key. E, se um dia, se por fim, acor­dás­se­mos e o mundo afi­nal tinha mudado, em toda a sua gran­deza. Será que dese­ja­ría­mos regres­sar à “normalidade”?

E, se, por fim, nos deci­dís­se­mos a escre­ver isso tudo? Será que final­mente alguém nos leria?

De todo o cansaço do mundo, este é o meu…

Can­sado de tudo, can­sado dos nadas.

Can­sado de todos os peque­nos ins­tan­tes que fazem tudo pare­cer coisa nenhuma.

Este can­saço que me  per­se­gue não é mais do que as cer­te­zas soma­das às dúvi­das. Infe­liz­mente não se anu­lam, complementam-se numa cruel e odi­osa bola de neve de defei­tos, fei­tios, falhas de carác­ter e per­so­na­li­dade com­ple­ta­mente lixada pelas asnei­ras acu­mu­la­das ao longo de anos e anos de igno­rân­cia e cegueira auto-infligida.

E, no fim, o que fica? Mais dúvi­das? Mais cer­te­zas que nos dei­xam mais perto do fim?

No fim, fica o can­saço. Das acções, pala­vras. Das esco­lhas e incer­te­zas. Dos sonhos e objec­ti­vos falha­dos. De amo­res vivi­dos e por viver. De ódios ali­men­ta­dos a mes­qui­nhez. De estu­pi­dez dis­far­çada de ignorância.

E no fim, todo este can­saço é meu…

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