Analiso os meus pés. A sua forma é a prova de que sou filho do meu pai, dizem. E as mãos também. Agora que penso nisso, as orelhas, a estrutura e postura corporal. Da minha mãe guardo os olhos e as feições. Somos todos pequenas amálgamas de heranças genéticas e passados prensados em helicoidais histórias de famílias, encontros e desencontros. E agora, eu. Resultado de séculos de misturas, experiências impromptu de casais, casados ou não, legítimos ou nem por isso. Depois de todo o darwinismo, chegou a isto. Um corpo disforme e obtuso que balança precariamente no parapeito de um edifício perdido no meio de Lisboa. “Ah, e tal, a alma e a fé” — dizem. Poupem-me. Depois de mais de 30 anos — quase 40 — de tentar encontrar algo, alguém, que me indique que de facto a alma e a fé prestam para alguma coisa, cheguei à conclusão de que somos todos um bando de amibas com pretensões a organismos multicelular pensantes. Tudo o que somos é-nos enfiado goela abaixo desde o momento em que nascemos. Talvez mesmo antes. E tudo o que passamos como conhecimento e experiência não é de facto nosso mas o que nos incutiram como nosso. Fé? Sim, tenho fé que isto acabe depressa. Alma? É para os tolos.
Os meus olhos desviam-se agora para as minhas mãos. Estão cerradas. Irritei-me um pouco, com esta verborreia da alma. Não posso deixar de sorrir. Até agora, que tudo se aproxima do destino por mim traçado, me ponho com merdas. Sou mesmo tolo. Se não tivesse ligado a estas pequenas coisas ao longo da minha vida provavelmente teria sido mais feliz. “A ignorância é felicidade”, li eu em qualquer lado. teria gozado mais a minha família, os meus amigos. Teria memórias de tudo isso e nenhuma das desgraças e tragédias que me acompanharam.
As gotas de chuva tornam-se mais escassas. Está a passar o dilúvio desta tempestade de Verão. Recordo-me de umas férias no Algarve, há muitos anos atrás. A chuva começara a cair. Nós estávamos na praia. E ouviram-se os primeiros trovões. A minha mãe correu para a beira mar e gritou pelo meu nome, quase desesperada. Eu, brincando na água, como qualquer criança, não percebi a razão de tanto desespero mas sai rapidamente, perguntando o que se passava. Foi nesse dia que soube, pela primeira vez que, em caso de trovoada não deveria aproximar-me de extensões de água. Aprendizagem contínua, cortesia da mamã. Já não me recordo em que ano isso se passou. Pensando bem, as memórias de férias com a minha mãe misturam-se um pouco, apesar de alguns recortes dignos de destaque. Ayamonte, Huelva e Matalascañas, Vilamoura, Lagos e Alvor, Ericeira, Las Palmas e Bom Sucesso. Tudo pequenas histórias. Pequenos momentos de nada que tudo significam. Como o meu pai também tenho alguns momentos que me ficaram colados no cortex cerebral, principalmente a Nazaré e o Funchal. Mas isso tudo são só pequenos retalhos, apenas a cobertura. Tudo o resto pelo meio é que é o miolo do bolo. Ficar horas à espera de embarcar para o Brasil e ficar em terra à última da hora porque não havia lugares disponíveis. Viajar no cockpit para o Funchal à noite. Aprender a conduzir no Fiat Cinquecento da minha mãe. E depois? Depois, nada. São momentos, apenas momentos. Os meus momentos. Quem é que se interessa por isso? Recomeçou a chover, lembrando-me que isto tudo não é mais do que a última das lavagens. À tal alma, que tanto apregoam, mas sobretudo lavar esta cidade que viu nascer de mim. De todos os traços e vestígios.
Já está pela metade, o sol. E eu sem a camera fotográfica. Por um instante, micro-segundo, tive o impulso de voltar para trás. Só para poder capturar esta pintura viva. Mas já não importa. As primeiras lágrimas misturam-se com a chuva que lavra a minha face queimada pelo sol da estação. Sento-me. Vou-me deixar estar aqui um pouco. Pode ser que tudo desapareça e eu não precise mais voar para o abismo. Igual ao que me encontro, neste momento…
(continua)