Os braços pesam, as mãos soltas como folhas no Outono. Tudo em mim parece querer adormecer, hibernando e aguardando melhores dias.
A voz arrasta-se imitando o travo de um vinho meio tosco e a pedir tacho, em vez de copo.
Se não o faço, é porque sei que há quem dependa de mim. Mas assumo o cansaço como sendo doloroso.
É este o peso de uma(s) vida(s) sobre os meus ombros. É esta a vida em que o karma resolveu cobrar tudo o que tinha acumulado de uma assentada.
Felizmente tenho costas largas, diriam alguns…
Mesmo assim poderia tentar a fuga, para o esquecimento talvez.
Se não o faço, é porque não me quero esquecer. Se não o faço é porque me fazes querer recordar.
Há pequenos detalhes, ínfimos, que me fazer acordar todos os dias e deitar aguardando mais um.
Para uns, dormir não é mais do que esperar a morte. Para mim, é esperar pelo futuro.
Fazer do futuro um presente que mereça ser vivido e recordado quando se tornar no nosso passado.
E por isto tudo. Por me saber ainda aqui, cansado, perdido no meio do meu passado e do nosso futuro.
Por saber que carrego nos ombros outras vidas e outros cansaços.
Deixo para trás o Outono, carrego comigo o Inverno e aguardo pela Primavera, sorrindo.
Porque, felizmente, tenho as costas largas…