Hoje é o dia.
O sol nasceu, como é seu hábito, já queima.
O vento, teimoso, varre os cantos das ruas e vielas de Lisboa.
E eu, cansado, sigo o mesmo caminho de sempre.
Mas hoje é o dia.
As memórias, tingidas de sal, são filmes que espero ver e rever.
A saudade estanca o choro e prevalece quente e alegre.
E eu, olho para a tua imagem e sei que nunca te esquecerei.
E hoje é o dia.
Não há mais palavras que te possa sussurrar.
Os poemas que te escrevo já nem fazem sentido.
E eu, nem preciso saber falar, para te conseguir ouvir.
Todos os momentos em que me recordo.
Todas as viagens são rasgos de luz.
E eu, sempre teu, recordo-te minha, sempre mãe.
E porque hoje é o dia,
Prometo chorar-te até à eternidade.
Rasgar o peito com a saudade.
E gritar o teu nome em momentos de desespero.
Mas sempre sabendo que estás aqui no meu peito.
E que, se não te tenho fisicamente, tenho-te sempre em mim.
Sangue do teu sangue, vida a que deste o sopro da vida.
E sendo hoje o dia,
Elevo-te na memória e deixo-te em palavras tontas.
Pedaços de rimas incompletas, como a tua vida.
E retalhos de momentos que vivemos os dois.
E ao longo do dia, o sol continuará a queimar-me as faces.
As lágrimas, levadas pelo vento, deixarão a minha pele seca.
E eu, sorrindo, falarei de ti ao mundo.
in Memoriam — Maria Nella Vercesi Tierno da Silva (1949–2009)