Atisha

Atisha certa vez foi ques­ti­o­nado por seus discípulos:

Qual é o ensi­na­mento mais ele­vado do cami­nho? Atisha respondeu:

A mais alta habi­li­dade é a rea­li­za­ção do estado sem ego.
A mais ele­vada nobreza está em sub­ju­gar sua pró­pria mente.
A mais ele­vada exce­lên­cia está em ter uma mente que pro­cure aju­dar os outros.
O mais ele­vado pre­ceito é a con­tí­nua vigi­lân­cia e plena aten­ção serena.
O mais ele­vado remé­dio está em com­pre­en­der a ausên­cia de rea­li­dade de todas as coi­sas.
A mais ele­vada ati­vi­dade está em não se con­for­mar com pre­o­cu­pa­ções mun­da­nas.
A mais ele­vada rea­li­za­ção é a dimi­nui­ção e trans­mu­ta­ção das pai­xões.
A mais ele­vada gene­ro­si­dade se encon­tra no desa­pego.
A mais ele­vada dis­ci­plina é uma mente pací­fica.
A mais ele­vada paci­ên­cia é a humil­dade.
A mais ele­vada per­sis­tên­cia é aban­do­nar o apego a todo fazer.
A mais ele­vada medi­ta­ção é uma mente sem pre­ten­sões ou incli­na­ções.
A mais ele­vada sabe­do­ria é não se agar­rar a algo assim que aparecer.

Ao dei­xar a pro­vín­cia oci­den­tal de Nari, Atisha deu o seguinte acon­se­lha­mento aos seus dis­cí­pu­los reunidos:

Ami­gos, até que tenham obtido ilu­mi­na­ção, o pro­fes­sor espi­ri­tual é neces­sá­rio; logo, apóiem-se no sagrado pro­fes­sor espi­ri­tual. Até que tenham rea­li­zado com­ple­ta­mente a natu­reza da vacui­dade, vocês devem ouvir o ensi­na­mento; logo, ouçam aten­ta­mente ao pre­ceito do pro­fes­sor. Mera­mente saber o Dharma não é sufi­ci­ente para se tor­na­rem ilu­mi­na­dos; vocês devem pra­ti­car cons­tan­te­mente. Vão para longe de qual­quer lugar que seja danoso à prá­tica; per­ma­ne­çam sem­pre num local que seja con­du­tor da vir­tude. O cla­mor é danoso até que obte­nham uma mente firme; logo, fiquem num local isolado.

Aban­do­nem os ami­gos que for­ta­le­cem os gri­lhões das suas pai­xões; apóiem-se nos ami­gos que façam aumen­tar a vir­tude. Man­te­nham isso em mente. Nunca haverá um fim nas coi­sas a fazer, por­tanto, limi­tem suas ati­vi­da­des. Dedi­quem sua vir­tude dia e noite e este­jam sem­pre sere­na­mente alerta.

Uma vez que tenham obtido o pre­ceito do pro­fes­sor, vocês deve­riam sem­pre medi­tar no ensi­na­mento e agir em har­mo­nia com a fala do pro­fes­sor. Quando fize­rem isso com grande humil­dade, os efei­tos se mani­fes­ta­rão sem atraso. Se agi­rem de acordo com o Dharma a par­tir das pro­fun­de­zas do seu cora­ção, tanto a comida quanto os itens neces­sá­rios virão naturalmente.

Ami­gos, não há satis­fa­ção nas coi­sas que vocês dese­jam. É como beber água do mar para satis­fa­zer a sede. Logo, este­jam con­ten­tes. Ani­qui­lem todas as for­mas de pre­ten­são e ambi­ção, orgu­lho e con­ceito; subjuguem-se e sejam pací­fi­cos. Aban­do­nem tudo que alguns cha­mam de “vir­tude”, mas que na ver­dade é um obs­tá­culo à prá­tica do Dharma. Como se fos­sem pedras num estreito cami­nho escor­re­ga­dio, vocês devem lim­par todas as idéias de ganho e res­peito, pois elas são a arma­di­lha do demô­nio. Como ara­nho no nariz, assoem todos os pen­sa­men­tos de fama e exal­ta­ção, pois eles ser­vem ape­nas para ilu­dir e enganar.

Já que a feli­ci­dade, o pra­zer e os ami­gos que vocês têm acu­mu­lado duram de ape­nas um momento, virem as cos­tas para eles. A vida futura não é mais longa do que esta vida, por­tanto cui­da­do­sa­mente zelem seu tesouro de vir­tude para se pro­ve­rem no futuro. Vocês dei­xa­rão tudo para trás quando mor­re­rem; não apeguem-se a nada.

Dei­xem para trás o ato de desa­ni­mar e depre­ciar os outros e gerem uma mente com­pas­siva por aque­les que são seus infe­ri­o­res. Não tenham apego pro­fundo por seus ami­gos e não dis­cri­mi­nem seus ini­mi­gos. Sem serem inve­jo­sos ou cobi­ço­sos das boas qua­li­da­des dos demais, com humil­dade desen­vol­vam estas qua­li­da­des vocês mes­mos. Não se inco­mo­dem exa­mi­nando as falhas dos demais, mas exa­mi­nem as suas pró­prias. Purguem-se delas como san­gue ruim. Tam­pouco devem se con­cen­trar nas suas pró­prias vir­tu­des; ao invés, respeitem-nas como um servo faria. Esten­dam amor e gen­ti­leza a todos os seres como se eles fos­sem seus pró­prios filhos.

Sem­pre tenham um rosto sor­ri­dente e uma mente amá­vel. Falem hones­ta­mente e sem raiva. Se saí­rem dizendo mui­tas coi­sas sem sen­tido, vocês come­te­rão erros; assim, falem com mode­ra­ção. Se fize­rem mui­tas coi­sas sem sen­tido, seu tra­ba­lho vir­tu­oso ces­sará; aban­done as ações que não sejam espi­ri­tu­ais. É inú­til esforçar-se com tra­ba­lho sem essên­cia. Já que qual­quer coisa que acon­teça com vocês vem como resul­tado de seu karma pas­sado, os resul­ta­dos nunca coin­ci­di­rão com seus dese­jos pre­sen­tes. Logo, fiquem calmos.

Ó! É bem melhor mor­rer do que cau­sar a ver­go­nha de uma pes­soa santa; logo, vocês devem sem­pre ser fran­cos e sem fal­si­dade. Toda misé­ria e feli­ci­dade dessa vida sur­gem do karma dessa e de vidas pas­sa­das; não cul­pem os outros por suas pró­prias circunstâncias.

Até que vocês se sub­ju­guem, vocês não podem sub­ju­gar outros; logo, pri­meiro sub­ju­guem a si mes­mos. Vocês não têm capa­ci­dade para ama­du­re­cer os demais sem cla­ri­vi­dên­cia; façam um grande esforço para atin­gir a clarividência.

Vocês cer­ta­mente mor­re­rão, dei­xando para trás qual­quer riqueza que tenham acu­mu­lado; logo, tenham cui­dado para não reu­ni­rem avil­ta­mento devido à for­tuna. Já que pra­ze­res que dis­traem não têm subs­tân­cia, adornem-se com a vir­tude da doa­ção. Sem­pre man­te­nham dis­ci­plina ética pura, pois ela é bonita nessa vida e asse­gura feli­ci­dade em vidas futu­ras. Nessa era da Kaliyuga, na qual o ódio é desen­fre­ado, assu­mam a arma­dura da paci­ên­cia, que anula a raiva. Per­ma­ne­ce­mos no mundo pelo poder da pre­guiça e indo­lên­cia; assim, deve­mos atear fogo como que num incên­dio ao nos esfor­çar­mos pelo atin­gi­mento. Momento após momento, suas vidas são des­per­di­ça­das quando atraí­das pela isca, pelo engodo das ati­vi­da­des mun­da­nas; é tempo de medi­tar. Por esta­rem sob a influên­cia de visões errô­neas, vocês não per­ce­bem a natu­reza da vacui­dade. Zelo­sa­mente bus­quem o sig­ni­fi­cado da realidade!

Ami­gos, o sam­sara é um vasto pân­tano no qual não há feli­ci­dade ver­da­deira; cor­ram para o local de libe­ra­ção. Medi­tem de acordo ao pre­ceito do pro­fes­sor e sequem o rio da misé­ria sam­sá­rica. Tenham sem­pre isso em mente. Ouçam bem esse con­se­lho, que não é feito de meras pala­vras, mas que vem direto de meu cora­ção. Se segui­rem esses pre­cei­tos, não farão feliz ape­nas a mim, mas a vocês mes­mos e a todos os outros da mesma forma. Embora eu seja um igno­rante, eu lhes ins­tigo a lem­bra­rem des­sas palavras.

Numa outra vez, Atisha afirmou:

Essa era negra não é o tempo para demons­trar sua habi­li­dade; é o tempo de per­se­ve­rar atra­vés do apuro. Não é o tempo de ter uma posi­ção ele­vada, mas tempo de ser humilde. Não é tempo de se apoiar em mui­tos aten­den­tes, mas tempo de se apoiar na soli­tude. Tam­pouco é tempo de sub­ju­gar dis­cí­pu­los; é tempo de subjugar-se. Não é tempo de mera­mente ouvir pala­vras, mas tempo de con­tem­plar seu sig­ni­fi­cado. Não é tempo de visi­tar aqui ou acolá; é tempo de per­ma­ne­cer só.

Quando o vene­rá­vel Atisha estava em Yer­pa­drak, perto de Lhasa, ele deu o seguinte preceito:

Nobres filhos refli­tam pro­fun­da­mente nes­sas pala­vras. Na era negra, as vidas são cur­tas e há muito a ser com­pre­en­dido. A dura­ção da vida é incerta; vocês não sabem por quanto tempo vive­rão. Assim, vocês devem fazer gran­des esfor­ços agora para pre­en­cher seus dese­jos corretos.

Não se pro­cla­mem mon­ges se vocês obtêm as neces­si­da­des da vida à maneira de um leigo. Embora vivam num monas­té­rio e tenham aban­do­nado as ati­vi­da­des mun­da­nas, se vocês se agi­tam pelo que aban­do­na­ram, não têm direito de pro­cla­mar, “sou um monge vivendo num monas­té­rio”. Se suas men­tes ainda per­sis­tem em dese­jos por coi­sas agra­dá­veis e ainda pro­du­zem pen­sa­men­tos dano­sos, não pro­clame, “sou um monge vivendo num monas­té­rio”. Se ainda se rodeiam com pes­soas mun­da­nas e des­per­di­çam tempo em con­ver­sas mun­da­nas e sem sen­tido com aque­les com quem vivem, ainda que este­jam vivendo num monas­té­rio, não pro­cla­mem, “sou um monge vivendo num monas­té­rio”. Se vocês são impa­ci­en­tes e saem se sen­tindo menos­pre­za­dos, se não con­se­guem ser ao menos um boca­di­nho de auxí­lio aos outros, não pro­cla­mem, “sou um monge bodhisattva”.

Se vocês falam assim com pes­soas mun­da­nas, vocês são gran­des men­ti­ro­sos. Vocês podem se safar ao dizer tais coi­sas. Con­tudo, não podem enga­nar aque­les que têm a vasta e ili­mi­tada visão da cla­ri­vi­dên­cia, nem podem enga­nar aque­les que têm o olho dhár­mico da grande onis­ci­ên­cia. Nem podem enga­nar a si mes­mos, pois os efei­tos do karma os seguem.

Para per­ma­ne­ce­rem num monas­té­rio, é neces­sá­rio aban­do­nar os modos mun­da­nos e o apego aos ami­gos e paren­tes. Ao renun­ci­a­rem a suas com­pa­nhias, estão se livrando de todas as cau­sas cone­xas de apego e nos­tal­gia. Daí em diante, vocês devem pro­cu­rar a pre­ci­osa bodhi­chitta. Nem mesmo por um ins­tante devem per­mi­tir que surja sua obses­são pas­sada com assun­tos mun­da­nos. Pri­mei­ra­mente, vocês não pra­ti­ca­ram ade­qua­da­mente o Dharma e, sob a influên­cia de hábi­tos pas­sa­dos que mina­ram suas for­ças, vocês con­ti­nu­a­mente pro­du­zi­ram os con­cei­tos de uma pes­soa mun­dana. Como tais con­cei­tos são pre­do­mi­nan­tes, a menos que façam uso de for­tes antí­do­tos a eles, é inú­til per­ma­ne­cer num monas­té­rio. Vocês seriam como os pás­sa­ros e ani­mais sel­va­gens que lá vivem.

Em resumo, ficar num monas­té­rio não será de auxí­lio se vocês não rever­te­rem à obses­são por coi­sas afá­veis e não renun­ci­a­rem às ati­vi­da­des dessa vida. Pois se não cor­ta­rem essas incli­na­ções, ao pen­sa­rem que podem tra­ba­lhar pelos obje­ti­vos tanto dessa como de vidas futu­ras, vocês não rea­li­za­rão qual­quer coisa, a não ser prá­ti­cas reli­gi­o­sas inci­den­tais. Esse tipo de prá­tica não é qual­quer coisa a não ser prá­tica hipó­crita e pre­ten­si­osa feita por ganho egoísta.

Con­se­guinte, vocês devem sem­pre pro­cu­rar ami­gos espi­ri­tu­ais e se afas­ta­rem de má com­pa­nhia. Não se tor­nem radi­ca­dos em um local nem acu­mu­lem mui­tas coi­sas. O que quer que façam, façam-no em har­mo­nia com o Dharma. Dei­xem que qual­quer coisa que façam seja um remé­dio para os gri­lhões das pai­xões. Essa é a ver­da­deira prá­tica reli­gi­osa; façam grande esforço para isso. Con­forme seu saber aumen­tar, não sejam pos­suí­dos pelo demô­nio do orgulho.

Ao per­ma­ne­ce­rem num local iso­lado, subjuguem-se. Tenham pou­cos dese­jos e este­jam con­ten­tes. Não se delei­tem em seu pró­prio conhe­ci­mento, nem pro­cu­rem as falhas dos outros. Não sejam covar­des ou ansi­o­sos. Sejam de boa von­tade e sem pre­con­cei­tos. Concentre-se no Dharma ao se dis­traí­rem pelas coi­sas erradas.

Sejam humil­des e, se forem der­ro­ta­dos, acei­tem isso gra­ci­o­sa­mente. Aban­do­nem a osten­ta­ção; renun­ciem ao desejo. Sem­pre gerem uma mente com­pas­siva. O que quer façam, façam-no mode­ra­da­mente. Sejam facil­mente con­ten­tá­veis e facil­mente sus­ten­tá­veis. Cor­ram como um ani­mal sel­va­gem do que quer que possa aprisioná-los.

Se não renun­ci­a­rem à exis­tên­cia mun­dana, não digam que vocês são sagra­dos. Se não renun­ci­a­rem a terra e à agri­cul­tura, não digam que aden­tra­ram a Sangha. Se não renun­ci­a­rem ao desejo, não digam que são mon­ges. Se não tive­rem amor e com­pai­xão, não digam que são bodhi­satt­vas. Se não renun­ci­a­rem ao fazer, não digam que são gran­des medi­ta­do­res. Não esti­mem seus desejos.

Em resumo, quando esti­ve­rem num monas­té­rio, engajem-se em pou­cas ati­vi­da­des e ape­nas medi­tem no Dharma.

Não tenham causa para arre­pen­di­men­tos no momento da morte.

Post a comment

Copyright © Ricardo Vercesi Picoto
Expiações e outras Deambulações

Built on Notes Blog Core
Powered by WordPress