III">Tomo III

- Des­culpa ter che­gado atra­sado. — Disse-Te enquanto me sen­tava cui­da­do­sa­mente nas rochas que esco­lhe­ras nesse dia para Te encos­ta­res. Pare­cia sim­ples olhando para a forma des­con­traida como esta­vas e, no entanto, demo­rei cerca de cinco minu­tos só para che­gar até Ti, num per­curso de dez metros.
Olhaste para mim, sor­rindo, como sem­pre — algo que nunca per­cebi bem porquê nem como — e fran­ziste meio sobro­lho, pelo menos assim me pare­ceu, que se tives­ses sobro­lho que se visse, esta­ria nesse momento fran­zido.
– Che­gaste atra­sado, bem sei, mas não tem impor­tân­cia. Ainda tens tempo de sobra para gas­tar. Aproveita-o como bem enten­te­res.
– Não vou por ai. — Res­pondi — Não quero entrar na con­versa em forma espi­ra­lada de “Quanto tempo tenho?” ou “Quando che­gará a minha hora”. Se o fizer entro em para­fuso e estouro o fusí­vel.
Sor­riste agora de forma mor­daz e decla­rada. Era fácil per­ce­ber quando sor­rias. A luz do sol ficava mais clara, se que é pos­sí­vel ter-se luz ainda mais clara que o branco da luz do sol — Pare­ces ter ama­du­re­cido desde a última vez que con­ver­sá­mos.
Olhei-te com ar des­con­fi­ado. Nor­mal­mente não cos­tu­mas ser assim a não ser que tenhas algo na manga. Não que tenhas man­gas, ou não. Sei lá. Não faço ideia, mas entendes-me.
– Pare­ces mais tu. — De novo, a sus­peita de algo mais do que sim­ples elo­gios reflectiu-se no meu sem­blante. — Que que­res dizer com isso? Não cos­tu­mas dizer algo desse cariz de forma tão gra­tuita. Que se passa? Há algo que deva saber?
– Vês? Até o teu voca­bu­lá­rio ama­du­re­ceu. “Cariz” não é algo que um pre­tenso “ado­les­cente de 34 anos” uti­lize no seu dis­curso habi­tual.
Raios! Mas que é que quer Ele dizer com isso? Estou com mais cabe­los bran­cos, é certo. na barba, nem se fala, mas… Que será que ele sabe que eu não sei?
De repente dei por mim a rir desal­ma­da­mente. Olhaste-me, de novo, tran­quilo e sereno, como sem­pre. Pelo menos como sem­pre eu Te vi. Soube que não per­gun­ta­ras por­que me estava a rir pois pro­va­ve­lemte já o sabe­rias de ante­mão. E eu a questionar-me de que sabe­rias Tu… Ape­nas TUDO, não é? Afi­nal de con­tas, não é suposto seres omni… omnis­ci­ente?
– Não… — Dis­seste bai­xi­nho. — Sei o que sei por serem ver­da­des uni­ver­sais mas não sei de todas as ins­trín­se­cas e com­ple­xas aven­tu­ras da con­di­ção humana, por exem­plo.
– Como assim? Des­culpa, mas agora tens que Te expli­car!
– Calma, eu explico. Por exem­plo, eu sei o que o uni­verso tem pla­ne­ado, tudo o que se irá suce­der com os astros, como e quando deter­mi­na­das estre­las se irão auto-destruir no belo espe­tá­culo a que ape­li­dam de Super­No­vas. Sei tam­bém como estará o clima nos pró­xi­mos milé­nios. No entanto, e isso é muito impor­tante, não sei o que dirás ama­nhã de manhã às tuas filhas quando estas acor­da­res. Quer dizer, faço uma ideia por te obser­var dia­ri­a­mente, a ti e a todos os outros, mas há cer­tas coi­sas que só a vocês com­pete deci­dir e, como tal, me são com­ple­ta­mente des­co­nhe­ci­das. Desta forma, man­te­nho a impar­ci­a­li­dade neces­sá­ria, a arbi­tra­ri­e­dade dese­jada e não me abor­reço…
– Ouve-me, disse. Lembrei-me por­que vim aqui hoje. Não o fizera antes por­que a raiva tinha tomado conta de mim e, durante um largo período de tempo, fiz de Ti o meu alvo pre­fe­rido. Ainda assim, pre­ciso de te per­gun­tar porquê. Porquê? Já não bas­tava as difi­cul­da­des de ser­mos como somos e de tra­zer­mos para o pre­sente o peso de uma vida com­plexa e por vezes sem grande sen­tido? Não basta ter que lutar con­tra os meus fan­tas­mas e os dela ao mesmo tempo? E por­que ela e não eu? Mais, por­que naquele momento? Quando deve­ria ser algo tão belo, quase ange­li­cal… Porquê?
– Lamento, mas não te posso res­pon­der a todas essas ques­tões. Se o fizesse esta­ria a ser injusto con­tigo…
– Injusto? Que­res mais injus­tiça do que ser diag­nos­ti­cada com can­cro de mama na semana em que damos à luz o nosso pri­meiro filho?
– Sim, injusto. Ima­gina sabe­res exac­ta­mente as res­pos­tas a todas as tuas per­gun­tas. No entanto não podes trans­mi­tir nada a nin­guém. De que te ser­vi­ria o conhe­ci­mento se não pudes­ses uti­li­zar para con­so­lar a tua mulher? Para que lida­res com o tor­mento de teres conhe­ci­mento sem pode­res par­ti­lhar com quem te rodeia? E por último, como te disse, há cer­tas coi­sas que deixo ao acaso, se é que de aca­sos pode­mos falar. Diga­mos que as con­di­ções esta­vam cri­a­das. As esco­lhas são vos­sas. Se toma­ram deter­mi­na­das deci­sões, se esco­lhe­ram deter­mi­na­dos cami­nhos, isso é que cons­trói o vosso des­tino, com as peque­nas peças que vão apa­nhando pelo cami­nho… No teu caso, podes perguntar-te, como sei que o fazes, se não tives­sem levado a gra­vi­dez avante, tal­vez o tumor não se tivesse desen­vol­vido. Pensa antes assim, se não tives­sem levado a gra­vi­dez avante, tal­vez o tumor não tivesse sido detec­tado a tempo…
– Per­cebo o que que­res dizer, mas tem sido tão difi­cil… Não é só lidar com os pro­ble­mas finan­cei­ros e as dis­cus­sões idi­o­tas que se geram á conta disso. São todos os dias que pas­sa­mos a ten­tar fazer o nosso melhor e, na mai­o­ria dos casos, parece sim­ples­mente não che­gar. As miu­das que ber­ram, a casa sem­pre num caos, o dinheiro que se esgota e ainda nem vamos a meio do mês. Os tru­ques e quase magia que temos que fazer para ter comida na mesa durante o período em que esta­mos “lisos”. Os dis­pa­ra­tes que faço, mesmo sabendo as reper­cur­sões no orça­mento fami­liar. O jar­dim zoo­ló­gico que temos den­tro de casa. A saúde da minha mulher. A minha saúde. Os receios pela saúde das minhas filhas. O ten­tar sin­grar numa empresa ape­nas por­que somos obri­ga­dos a ter um nível sala­rial ele­vado para poder pagar as con­tas. Os pro­ble­mas de sono resul­tan­tes disto tudo e que me levam a ter o emprego na corda bamba… Enfim, todos os dias são uma aven­tura, sem­pre com as mes­mas per­so­na­gens, sem­pre com o mesmo guião, em que sem­pre ten­ta­mos arran­car os aplau­sos ao fim do dia e nem sem­pre os ouvi­mos…
– Sim, eu sei. Mas congratula-te por, pelo menos, ten­ta­res. Há quem, pura e sim­ples­mente, desista…
Durante alguns minu­tos ficá­mos ali, sen­ta­dos no pro­mon­tó­rio onde sem­pre nos encon­tra­mos, embora saiba que não inte­ressa real­mente qual o rochedo onde te pro­cure, estás sem­pre lá. Basta olhar. Levantei-me, final­mente. Não sabia quanto tempo tinha estado ali mas tam­bém não era impor­tante. Afi­nal ainda tinha algum tempo de sobra e nunca é demais falar com Ele. Não se pode con­si­de­rar isso como tempo per­dido. Segui o meu cami­nho de sem­pre, de regresso ao único sítio que conheço como casa, com gri­tos, ber­ros, cho­ros de cri­ança e baru­lhos de ani­mais diver­sos entre­co­ta­dos com as dis­cus­sões dia­rias de uma famí­lia que luta pela vida, pelo amor à vida. Que luta por amor. Um dia des­tes con­ver­sa­re­mos um pouco mais, quando Te vol­tar a pro­cu­rar no “nosso” pro­mon­tó­rio, ou nou­tro rochedo qualquer…

Sexo

Depois de quei­mar a lín­gua
Na tua pele vipe­rina
Ainda tremo ainda gemendo tremo
Sem jeito gra­cejo des­feito
De tanto que te dei
E deito-me de novo em ti
Ama­nhece mas sinto as estre­las de sem­pre
Quando me abra­ças des­gra­ças
De novo ao me ver assim
Não tenho segre­dos nem mesmo o sexo
É meu o teu corpo que se funde e elude
E trago no travo a lín­gua que corre
Cobra que cobre o meu corpo e foge de mim
Assim ter­mi­nas e gozas de mim
Do pra­zer que me rou­bas e tomas como teu
E tra­ças as mar­cas das unhas das vidas
Na carne de um corpo que já não é meu

II">Tomo II

Sentei-me ao teu lado. De novo. Mais uma vez. Encontrei-te onde espe­rava. Aqui. Esta­vas como sem­pre esti­veste. Calmo, sereno. Ficá­mos ali, sem dizer nada, hora após hora. Senti que me olha­vas. Curi­oso, tal­vez. Era a pri­meira vez que não abria a boca estando con­tigo. Ali. Fosse onde fosse. Não pen­sei que fos­sem neces­sá­rias pala­vras, pen­sei para comugo. Sor­riste. Olhaste para o livro que tra­zia na mão. Res­pos­tas, era o título. O autor, Dalai Lama. Sor­riste mais uma vez. Foi então que dis­seste: “Alegra-me saber que pro­cu­ras res­pos­tas e não te limi­tas a colo­car ques­tões ao vento.” Olhei para ti pela pri­meira vez naquele dia. “Não é fácil, pois não?” Sim, tens razão, como sem­pre. Ainda assim há sem­pre qual­quer coisa por res­pon­der. Mesmo quando tudo nos parece claro. Mesmo os recan­tos mais negros da nossa alma. Ainda assim, há per­gun­tas sem res­posta. “O que é que que­rias? Se tudo fosse assim, como pre­ten­dem, não fazia sen­tido estar aqui, con­vosco. Não tenho a res­posta para tudo, ape­nas vos posso aju­dar a encon­trar o cami­nho certo. E, como verás, não sou o único a afirmá-lo.” — E olhou mais uma vez para o livro que tra­zia naquele dia. Olhei tam­bém. Abri-o ao acaso e li uma pas­sa­gem apa­ren­te­mente des­pro­vida de con­texto. Ouviste com aten­ção, olhar sereno sobre o hori­zonte. Não comen­taste, nem sequer te vi mexer um milí­me­tro. “Não tens nada a dizer?”, per­gun­tei. “Que que­res que te diga? Que está certo? Que está errado? Já me devias conhe­cer mini­ma­mente para sabe­res que não julgo os homens. Nem mesmo aque­les cuja ilu­mi­na­ção em rela­ção às coi­sas do mundo e do espí­rito está mais alta do que a mai­o­ria. Dalai Lama é um ser humano sábio. Ele sabe o que diz e por­que o diz. Da mesma forma que tu o sabe­rias se dei­xas­ses de lado as anco­ras da vida quo­ti­di­ana e a futi­li­dade de advém da tua forma de vida ‘pro­gres­sista’ e ‘moderna’. E isso aplica-se a qual­quer ser. Repara, os giras­sóis giram ao longo do dia em busca do calor do sol. Nada mais lhes inte­ressa. Tem esse pro­pó­sito único na vida. Os sal­mões nadam milha­res de qui­ló­me­tros para deso­va­rem algu­res junto à nas­cente de um rio e mor­re­rem a seguir. É esse o seu pro­pó­sito na vida. É isso que vos faz falta como seres uni­ver­sais. Des­co­brir o vosso pro­pó­sito na vida. Por isso pas­sam os vos­sos anos na terra em cons­tante tur­bi­lhão emo­ci­o­nal em busca de algo quem nem vocês bem ao certo. E final­mente, no momento em que dei­xam esta exis­tên­cia, nem sem­pre com­pleta, nem sem­pre con­cluída, nem sem­pre satis­fa­tó­ria, nem sem­pre vivida, só nesse momento têm um pequeno vis­lum­bre do vosso pro­pó­sito. Só nesse momento. E então num último sopro de vida, ten­tam dei­xar a men­sa­gem a quem vos acom­pa­nha naquele momento. Na mai­o­ria das vezes não o con­se­guem. Por­que aca­bam per­di­dos, sozi­nhos na mul­ti­dão.” Olhou para mim de frente. “Vale a pena viver assim?” Estra­nhei a per­gunta, que não sou­besse pen­sa­ria que… “Não é nada disso. Pergunto-te se vale a pena viver assim para que tenhas mais uma esco­lha no teu cami­nho. Mas a esco­lha, em última aná­lise, será tua e só tua. E por hoje já chega, deixa-me medi­tar. Por vezes cansas-me mais tu do que um ter­ra­moto na India.” E eu fui. Só eu mesmo

Tomo I

Olá.” — dizes-me tu com ar des­pre­o­cu­pado. Como se nada te afec­tasse. Logo a ti, que tudo tem que for­ço­sa­mente afec­tar. Olhas para mim como se nos tives­se­mos cru­zado ainda ontem e dizes:

Estás mais velho.”.

Respondo-te cho­cado que já se pas­sa­ram 8 anos.

Já assim tan­tos? Parece que foi ontem.”

Pois, para alguém da tua idade é natu­ral que não seja muito. Para nós, comuns mor­tais, pode ser uma vida. Para alguns até, mais do que alguma vez vive­rão ou já viveram.

Vol­taste final­mente. Já há bas­tante tempo que não falávamos.”

Peço-te des­culpa pela ausência.

Perdeste-te algu­res pelo cami­nho?” — Esse tom de sar­casmo mal dis­far­çado indicia-me que já sabes a res­posta, como é habi­tual. Não cedo à ten­ta­ção e ignoro a pergunta.

Sor­ris. É bom ver-te assim de tão bom humor com tanta tra­pa­lhada que se passa no mundo. Pen­sei que esti­ves­ses com ar pre­o­cu­pado, ansi­oso ou até mesmo irado. Dizes-me que não há muito que pos­sas fazer. As coi­sas tem que seguir o seu rumo. Esta­mos a colher o que semeá­mos. Bem sei, bem sei. Mas e os peque­nos males do mundo? Aque­les que pas­sam incóg­ni­tos dos jor­nais e tele­vi­sões mun­di­ais? As doen­ças e demais pro­ble­mas dos homens comuns. Não fazes nada con­tra isso?

Estás a falar da tua mulher…” — O meu olhar responde-te sem que seja pre­ciso dizer uma palavra.

Eu sei, eu sei. Não há jus­tiça nenhuma nisso. Nem divina, nem ter­rena. É assim ape­nas. Por vezes este tipo de coi­sas, por mais injus­tas que pare­çam — e mui­tas vezes o são — ape­nas ser­vem para vos por à prova. Nem sem­pre serão pro­vas de fé como mui­tos que­rem crer, mas serão sem­pre pro­vas. Diz-me, que apren­deste nos últi­mos anos? Quan­tas foram as vezes que qui­seste vol­tar a ser o que eras dan­tes e te enco­lheste perante as pers­pec­ti­vas de um futuro assus­ta­do­ra­mente real e absurdo? E o que fizeste? É essa a tua prova. No dia em que tu e eu esti­ver­mos aqui pela última vez nesta con­di­ção como hoje esta­mos, nesse dia, irás com­pre­en­der isso. Depois, mais tarde, quem sabe se não esta­rás tu aqui a falar com alguém que pre­cise, tal como tu hoje…”

Eu sabia que ELE tinha razão. Eu sabia. E no fundo…

É difi­cil, não é?”

ELE sabe sem­pre tudo…

Puto (1999)

Puto
Hoje acor­das para mais um dia sem sol.
Puto
Para quem todas as ruas são camas
E os eléc­tri­cos são via­gens ao mundo dos homens
Som­bras de uma vida sem risos, sem espe­rança
Nos olhos baços dos putos que nunca che­ga­ram a ser cri­an­ças.
Tu, puto
Que tra­tas as putas e os chu­los por tu
E para quem todas as pedras são brin­que­dos
Todas os brin­que­dos são armas
Todos as emo­ções são medos.
Tu, puto
Todos os sonhos do mundo são teus.
Que hoje vagueias por mais uns tro­cos per­di­dos
E o cheiro da cola se con­funde com a humi­lha­ção e os sen­ti­dos.
Tu, que tens o chão onde dor­mes por amigo, o car­tão por abrigo
Tens o mundo por ini­migo.
Puto
Quando olhas, o que vês?
E os olha­res indi­fe­ren­tes de quem passa?
E os dias que pas­sam sem nada de novo se pas­sar
E os ven­tos que te ador­me­cem e te escon­dem do perigo.
Puto
Todos os peri­gos do mundo são teus.

As últimas palavras são sempre amargas

Já te perdi
Algu­res entre o dia em que te vi
Pela pri­meira vez
E o último sus­piro
Já nem sei onde pro­cu­rar
As memó­rias que nunca tive­mos
Se algum dia, desde que sem ti
Pela última vez
Ao som do último tiro
Pou­saste a arma no peito
Inerte ainda te amei
Num bri­lho extinto
Fogo fátuo por atear
Já te perdi
Quando a vida fugiu de mim
Pela pri­meira vez
No último ar que respiro…

Estórias de Outras Lisboas (1999)

As auto­ri­da­des com­pe­ten­tes estão reu­ni­das de emer­gên­cia… ainda não se sabe se as for­ças mili­ta­res intra-regionais irão entrar em campo, no entanto temos notí­cias de uma con­si­de­rá­vel aglo­me­ra­ção de for­ças hos­tis a sul da capi­tal… será actu­a­li­zada sem­pre que possível.…”

Mari­ana tinha aca­bado com o namo­rado do momento. Cansava-se depressa. E depois, todos os rapa­zes da sua idade só pen­sa­vam em sexo. E de sexo estava ela farta. Já não podia com eles, os rapa­zes do bairro. Sem­pre a mesma coisa. Os dias passavam-se sem que nada se pas­sasse e sem­pre a mesma coisa. É o que da pas­sar o verão em casa. Uma m*, é o que é.

…Mas isso são pormenores.

Des­ceu a esca­da­ria que ia dar ao rio. Mari­ana gos­tava de ir pas­sear até à beira-rio. Foi aí que conhe­cera o seu pri­meiro amor. Foi aí que tivera o seu pri­meiro encon­tro. Foi aí que tivera o seu pri­meiro desgosto.

A lua ia já bem alto quando Mari­ana se sen­tou. Pés a roçar a super­fí­cie das águas revol­tas de um Tejo de outras eras. Mari­ana não o sabia.

Havia mui­tas coi­sas que Mari­ana não sabia. Essa era só uma delas. Ela tinha cons­ci­ên­cia disso mas não se dei­xava inco­mo­dar. A escola da vida era tudo o que neces­si­tava. Os estu­dos são para os ricos, dizia com frequên­cia. Ela estava mais à von­tade com as ruas de Alfama do que os outros, os ricos alguma vez esta­riam. Ali aprendia-se muita coisa. Nem mesmo o maior dos lite­ra­tos pode­ria alguma vez saber o que era viver ali, onde as ruas são mais peque­nas que os cor­re­do­res dos literatos.

Não sei se deve­ria estar a falar em lite­ra­tos, com o res­peito que lhes tenho, mas limito-me a rela­tar este epi­só­dio da vida de Mari­ana tal qual guia turís­tico. Sor­riso lavado nos den­tes e um desejo escon­dido de sair daqui para fora.

Mari­ana olhou para cima, em direc­ção ao sul. Encon­trou a outra mar­gem. Dese­jou ter asas para voar. Que­ria saber o que havia do outro lado.
Mari­ana nunca havia saído de Lis­boa, nem mesmo para ir à terra de seus avós. Nunca se per­gun­tara porquê. Nunca se impor­tara com isso. O seu mundo chegava-lhe, enchia-lhe as medi­das. Mas o sul, a outra mar­gem, ali estava o seu pote de ouro. Embora rara­mente tivesse visto o arco-íris, sabia per­fei­ta­mente que era ali que se escon­dia o pote de ouro. O “seu” pote de ouro. Isso Mari­ana sabia.

Uma lágrima que timi­da­mente se tinha escon­dido durante a der­ra­deira dis­cus­são com o agora ex-namorado sal­tou ali­vi­ada. Mas não foi por esse quase-amor des­feito. Mari­ana sabia pou­par os seus recur­sos natu­rais, incluindo as suas lágri­mas. Havia muito pou­cas coi­sas com que Mari­ana cho­rara durante a sua curta vida. Nem se lem­brava quais. Não deve­riam ter sido assim tão mar­can­tes, para que não se lem­brasse. Sendo assim, então pro­va­vel­mente teriam sido uma perda de tempo e de lágri­mas. Mari­ana agora cho­rava pelo rio. Ela amava aquele rio, mas era o rio que a impe­dia de ir ter com o seu pote de ouro.

Mui­tas vezes tinha ouvido as estó­rias que os mais velhos con­ta­vam da tra­ves­sia do Tejo. Houve quem o tivesse ten­tado a nado, sem sucesso.
Outrora, nou­tros tem­pos de que já a memó­ria nos traía, teriam exis­tido pon­tes, dizem. Haviam veí­cu­los que fariam a tra­ves­sia sobre as águas. Hoje de nada ser­vi­riam. As marés tinham subido e os bar­cos já não atra­ves­sa­vam o Tejo. Pelo menos para o outro lado. Hoje Mari­ana cho­rava por isso. Não per­ce­bia por­que não se podia atra­ves­sar para outro lado. Sabia, pelos mais velhos, que cos­tu­ma­vam ser parte do mesmo país. Sabia que assim era antes do que eles cha­ma­vam de praga dos R’s. Hoje esta­vam em dis­pu­tas cons­tan­tes. Lutava-se pela sobe­ra­nia do rio. Mas o rio não é de nin­guém, pen­sava Mari­ana. O rio é ali­mento do mar. O rio é o rio, nada mais. Mui­tas vezes mandavam-na calar. Diziam-lhe que estava a ser sub­ver­siva, que se teriam que des­cul­par com a polí­cia pela sua imper­ti­nên­cia, usando como motivo para tal com­por­ta­mento a sua idade e igno­rân­cia. Mari­ana sabia que era igno­rante. Não pre­ci­sava que lho lembrassem.

E agora, que fazer? Sen­tada à beira rio, pés molha­dos, sonhando com o “seu pote de ouro”, Mari­ana dei­xava der­ra­mar mais lágri­mas do que que­ria.
Mari­ana estava a che­gar ao fim das suas for­ças. Já não tinha mui­tos moti­vos por­que pou­par os seus recur­sos. Tal­vez fosse melhor ir para casa.
Ama­nhã tinha que ir tra­ba­lhar na fábrica de reci­cla­gem de plás­ti­cos de um polí­tico qual­quer. Um daque­les que apa­re­ciam na tele­vi­são a falar sobre o ambi­ente. Um daque­les que não o res­pei­ta­vam. Mais um. Mari­ana sabia-o, mesmo sem o saber. Tinha-o lido nos olhos do patrão. Político.

Sim, Mari­ana sabia-o…

O dia che­gou como tinha ido. Frio, cin­zento, escuro, obs­curo. Tudo isso con­tri­buía para o mal estar geral da popu­la­ção. Mas com já ia sendo cos­tume e os cos­tu­mes mui­tas vezes tornam-se hábi­tos que por sua vez se tor­nam tra­di­ções, já nin­guém se impor­tava muito com isso.

Mari­ana já se tinha lavado, ves­tido e ali­men­tado quando os pri­mei­ros raios de sol apa­re­ce­ram, como­da­mente escon­di­dos entre duas ou três nuvens. Mais uma vez des­ceu as esca­das que a leva­vam ao rio. Fazia sem­pre este cami­nho, embora fosse o mais longo. Gos­tava de acom­pa­nhar o rio enquanto ia para o tra­ba­lho. Por vezes parecia-lhe que o rio cor­ria em sen­tido con­trá­rio só para a acom­pa­nhar, mas devia ser o sono que ainda per­sis­tia em ocupar-lhe o corpo e a alma a pregar-lhe uma par­tida. Olhava para a outra mar­gem. Para o seu pote de ouro.

Temos con­fir­ma­ção de um ata­que… teme-se o desen­ca­dear de uma guerra já há muito contida…”

Mari­ana viu. Mari­ana viu tudo. O seu pote de ouro. Mari­ana viu-o. Bri­lhava como nunca vira nada bri­lhar. Nem mesmo o sol, naque­les fil­mes ame­ri­ca­nos que via na tele­vi­são. Maria soube então que era aquele o seu pote de ouro.
O seu e de mais nin­guém. Tinha-lhe sor­rido, iluminava-a, a ela e ao rio.
Sen­tiu que levan­tara voo. Nunca mais teria que se pre­o­cu­par com a reci­cla­gem de plás­ti­cos, com o olhar escuro e no entanto trans­pa­rente do seu patrão. Polí­tico. Nunca mais teria que des­cer as esca­das para ficar só, nem mesmo os rapa­zes lá do bairro a inco­mo­da­riam. Mari­ana soube. Pela pri­meira vez na vida soube. Tudo aquilo que nunca sou­bera. Mesmo aquilo que os mais velhos não ousa­ram contar-lhe. O seu pote de ouro estava ali, cada vez mais perto. Mari­ana viu-o…

Mari­ana nunca mais viu…

O Cigarro

Acende
Rasga o ar que res­piro
Aquece o frio que me per­tence
Ocupa-me o pen­sa­mento
Distrai-me do que quero pen­sar
Rouba-me o tempo de ócio
Adorna o tempo de tra­ba­lho
Acon­chega o dia que finda
Ador­mece a alvo­rada do sonho
Apaga-me.

Sem Título (1998)

Sal­tam lágri­mas do asfalto
Quando passa a senhora
Que nos leva ao altar
Do matri­mó­nio com a morte
Assi­na­mos os com­pro­mis­sos a san­gue
No asfalto a bor­ra­cha
Deixa-nos o odor fétido
De carne tem­pe­rada a alcoól
Nesta última refei­ção
De egoista estupidez

O Rio (1998)

Movi­mento errante este
Que me leva até ao mar
Na dúvida que em mim per­siste
Que mar­gem devo abraçar.

Copyright © Ricardo Vercesi Picoto
Expiações e outras Deambulações

Built on Notes Blog Core
Powered by WordPress