- Desculpa ter chegado atrasado. — Disse-Te enquanto me sentava cuidadosamente nas rochas que escolheras nesse dia para Te encostares. Parecia simples olhando para a forma descontraida como estavas e, no entanto, demorei cerca de cinco minutos só para chegar até Ti, num percurso de dez metros.
Olhaste para mim, sorrindo, como sempre — algo que nunca percebi bem porquê nem como — e franziste meio sobrolho, pelo menos assim me pareceu, que se tivesses sobrolho que se visse, estaria nesse momento franzido.
– Chegaste atrasado, bem sei, mas não tem importância. Ainda tens tempo de sobra para gastar. Aproveita-o como bem ententeres.
– Não vou por ai. — Respondi — Não quero entrar na conversa em forma espiralada de “Quanto tempo tenho?” ou “Quando chegará a minha hora”. Se o fizer entro em parafuso e estouro o fusível.
Sorriste agora de forma mordaz e declarada. Era fácil perceber quando sorrias. A luz do sol ficava mais clara, se que é possível ter-se luz ainda mais clara que o branco da luz do sol — Pareces ter amadurecido desde a última vez que conversámos.
Olhei-te com ar desconfiado. Normalmente não costumas ser assim a não ser que tenhas algo na manga. Não que tenhas mangas, ou não. Sei lá. Não faço ideia, mas entendes-me.
– Pareces mais tu. — De novo, a suspeita de algo mais do que simples elogios reflectiu-se no meu semblante. — Que queres dizer com isso? Não costumas dizer algo desse cariz de forma tão gratuita. Que se passa? Há algo que deva saber?
– Vês? Até o teu vocabulário amadureceu. “Cariz” não é algo que um pretenso “adolescente de 34 anos” utilize no seu discurso habitual.
Raios! Mas que é que quer Ele dizer com isso? Estou com mais cabelos brancos, é certo. na barba, nem se fala, mas… Que será que ele sabe que eu não sei?
De repente dei por mim a rir desalmadamente. Olhaste-me, de novo, tranquilo e sereno, como sempre. Pelo menos como sempre eu Te vi. Soube que não perguntaras porque me estava a rir pois provavelemte já o saberias de antemão. E eu a questionar-me de que saberias Tu… Apenas TUDO, não é? Afinal de contas, não é suposto seres omni… omnisciente?
– Não… — Disseste baixinho. — Sei o que sei por serem verdades universais mas não sei de todas as instrínsecas e complexas aventuras da condição humana, por exemplo.
– Como assim? Desculpa, mas agora tens que Te explicar!
– Calma, eu explico. Por exemplo, eu sei o que o universo tem planeado, tudo o que se irá suceder com os astros, como e quando determinadas estrelas se irão auto-destruir no belo espetáculo a que apelidam de SuperNovas. Sei também como estará o clima nos próximos milénios. No entanto, e isso é muito importante, não sei o que dirás amanhã de manhã às tuas filhas quando estas acordares. Quer dizer, faço uma ideia por te observar diariamente, a ti e a todos os outros, mas há certas coisas que só a vocês compete decidir e, como tal, me são completamente desconhecidas. Desta forma, mantenho a imparcialidade necessária, a arbitrariedade desejada e não me aborreço…
– Ouve-me, disse. Lembrei-me porque vim aqui hoje. Não o fizera antes porque a raiva tinha tomado conta de mim e, durante um largo período de tempo, fiz de Ti o meu alvo preferido. Ainda assim, preciso de te perguntar porquê. Porquê? Já não bastava as dificuldades de sermos como somos e de trazermos para o presente o peso de uma vida complexa e por vezes sem grande sentido? Não basta ter que lutar contra os meus fantasmas e os dela ao mesmo tempo? E porque ela e não eu? Mais, porque naquele momento? Quando deveria ser algo tão belo, quase angelical… Porquê?
– Lamento, mas não te posso responder a todas essas questões. Se o fizesse estaria a ser injusto contigo…
– Injusto? Queres mais injustiça do que ser diagnosticada com cancro de mama na semana em que damos à luz o nosso primeiro filho?
– Sim, injusto. Imagina saberes exactamente as respostas a todas as tuas perguntas. No entanto não podes transmitir nada a ninguém. De que te serviria o conhecimento se não pudesses utilizar para consolar a tua mulher? Para que lidares com o tormento de teres conhecimento sem poderes partilhar com quem te rodeia? E por último, como te disse, há certas coisas que deixo ao acaso, se é que de acasos podemos falar. Digamos que as condições estavam criadas. As escolhas são vossas. Se tomaram determinadas decisões, se escolheram determinados caminhos, isso é que constrói o vosso destino, com as pequenas peças que vão apanhando pelo caminho… No teu caso, podes perguntar-te, como sei que o fazes, se não tivessem levado a gravidez avante, talvez o tumor não se tivesse desenvolvido. Pensa antes assim, se não tivessem levado a gravidez avante, talvez o tumor não tivesse sido detectado a tempo…
– Percebo o que queres dizer, mas tem sido tão dificil… Não é só lidar com os problemas financeiros e as discussões idiotas que se geram á conta disso. São todos os dias que passamos a tentar fazer o nosso melhor e, na maioria dos casos, parece simplesmente não chegar. As miudas que berram, a casa sempre num caos, o dinheiro que se esgota e ainda nem vamos a meio do mês. Os truques e quase magia que temos que fazer para ter comida na mesa durante o período em que estamos “lisos”. Os disparates que faço, mesmo sabendo as repercursões no orçamento familiar. O jardim zoológico que temos dentro de casa. A saúde da minha mulher. A minha saúde. Os receios pela saúde das minhas filhas. O tentar singrar numa empresa apenas porque somos obrigados a ter um nível salarial elevado para poder pagar as contas. Os problemas de sono resultantes disto tudo e que me levam a ter o emprego na corda bamba… Enfim, todos os dias são uma aventura, sempre com as mesmas personagens, sempre com o mesmo guião, em que sempre tentamos arrancar os aplausos ao fim do dia e nem sempre os ouvimos…
– Sim, eu sei. Mas congratula-te por, pelo menos, tentares. Há quem, pura e simplesmente, desista…
Durante alguns minutos ficámos ali, sentados no promontório onde sempre nos encontramos, embora saiba que não interessa realmente qual o rochedo onde te procure, estás sempre lá. Basta olhar. Levantei-me, finalmente. Não sabia quanto tempo tinha estado ali mas também não era importante. Afinal ainda tinha algum tempo de sobra e nunca é demais falar com Ele. Não se pode considerar isso como tempo perdido. Segui o meu caminho de sempre, de regresso ao único sítio que conheço como casa, com gritos, berros, choros de criança e barulhos de animais diversos entrecotados com as discussões diarias de uma família que luta pela vida, pelo amor à vida. Que luta por amor. Um dia destes conversaremos um pouco mais, quando Te voltar a procurar no “nosso” promontório, ou noutro rochedo qualquer…
III">Tomo III
Sexo
Depois de queimar a língua
Na tua pele viperina
Ainda tremo ainda gemendo tremo
Sem jeito gracejo desfeito
De tanto que te dei
E deito-me de novo em ti
Amanhece mas sinto as estrelas de sempre
Quando me abraças desgraças
De novo ao me ver assim
Não tenho segredos nem mesmo o sexo
É meu o teu corpo que se funde e elude
E trago no travo a língua que corre
Cobra que cobre o meu corpo e foge de mim
Assim terminas e gozas de mim
Do prazer que me roubas e tomas como teu
E traças as marcas das unhas das vidas
Na carne de um corpo que já não é meu
II">Tomo II
Sentei-me ao teu lado. De novo. Mais uma vez. Encontrei-te onde esperava. Aqui. Estavas como sempre estiveste. Calmo, sereno. Ficámos ali, sem dizer nada, hora após hora. Senti que me olhavas. Curioso, talvez. Era a primeira vez que não abria a boca estando contigo. Ali. Fosse onde fosse. Não pensei que fossem necessárias palavras, pensei para comugo. Sorriste. Olhaste para o livro que trazia na mão. Respostas, era o título. O autor, Dalai Lama. Sorriste mais uma vez. Foi então que disseste: “Alegra-me saber que procuras respostas e não te limitas a colocar questões ao vento.” Olhei para ti pela primeira vez naquele dia. “Não é fácil, pois não?” Sim, tens razão, como sempre. Ainda assim há sempre qualquer coisa por responder. Mesmo quando tudo nos parece claro. Mesmo os recantos mais negros da nossa alma. Ainda assim, há perguntas sem resposta. “O que é que querias? Se tudo fosse assim, como pretendem, não fazia sentido estar aqui, convosco. Não tenho a resposta para tudo, apenas vos posso ajudar a encontrar o caminho certo. E, como verás, não sou o único a afirmá-lo.” — E olhou mais uma vez para o livro que trazia naquele dia. Olhei também. Abri-o ao acaso e li uma passagem aparentemente desprovida de contexto. Ouviste com atenção, olhar sereno sobre o horizonte. Não comentaste, nem sequer te vi mexer um milímetro. “Não tens nada a dizer?”, perguntei. “Que queres que te diga? Que está certo? Que está errado? Já me devias conhecer minimamente para saberes que não julgo os homens. Nem mesmo aqueles cuja iluminação em relação às coisas do mundo e do espírito está mais alta do que a maioria. Dalai Lama é um ser humano sábio. Ele sabe o que diz e porque o diz. Da mesma forma que tu o saberias se deixasses de lado as ancoras da vida quotidiana e a futilidade de advém da tua forma de vida ‘progressista’ e ‘moderna’. E isso aplica-se a qualquer ser. Repara, os girassóis giram ao longo do dia em busca do calor do sol. Nada mais lhes interessa. Tem esse propósito único na vida. Os salmões nadam milhares de quilómetros para desovarem algures junto à nascente de um rio e morrerem a seguir. É esse o seu propósito na vida. É isso que vos faz falta como seres universais. Descobrir o vosso propósito na vida. Por isso passam os vossos anos na terra em constante turbilhão emocional em busca de algo quem nem vocês bem ao certo. E finalmente, no momento em que deixam esta existência, nem sempre completa, nem sempre concluída, nem sempre satisfatória, nem sempre vivida, só nesse momento têm um pequeno vislumbre do vosso propósito. Só nesse momento. E então num último sopro de vida, tentam deixar a mensagem a quem vos acompanha naquele momento. Na maioria das vezes não o conseguem. Porque acabam perdidos, sozinhos na multidão.” Olhou para mim de frente. “Vale a pena viver assim?” Estranhei a pergunta, que não soubesse pensaria que… “Não é nada disso. Pergunto-te se vale a pena viver assim para que tenhas mais uma escolha no teu caminho. Mas a escolha, em última análise, será tua e só tua. E por hoje já chega, deixa-me meditar. Por vezes cansas-me mais tu do que um terramoto na India.” E eu fui. Só eu mesmo
Tomo I
“Olá.” — dizes-me tu com ar despreocupado. Como se nada te afectasse. Logo a ti, que tudo tem que forçosamente afectar. Olhas para mim como se nos tivessemos cruzado ainda ontem e dizes:
“Estás mais velho.”.
Respondo-te chocado que já se passaram 8 anos.
“Já assim tantos? Parece que foi ontem.”
Pois, para alguém da tua idade é natural que não seja muito. Para nós, comuns mortais, pode ser uma vida. Para alguns até, mais do que alguma vez viverão ou já viveram.
“Voltaste finalmente. Já há bastante tempo que não falávamos.”
Peço-te desculpa pela ausência.
“Perdeste-te algures pelo caminho?” — Esse tom de sarcasmo mal disfarçado indicia-me que já sabes a resposta, como é habitual. Não cedo à tentação e ignoro a pergunta.
Sorris. É bom ver-te assim de tão bom humor com tanta trapalhada que se passa no mundo. Pensei que estivesses com ar preocupado, ansioso ou até mesmo irado. Dizes-me que não há muito que possas fazer. As coisas tem que seguir o seu rumo. Estamos a colher o que semeámos. Bem sei, bem sei. Mas e os pequenos males do mundo? Aqueles que passam incógnitos dos jornais e televisões mundiais? As doenças e demais problemas dos homens comuns. Não fazes nada contra isso?
“Estás a falar da tua mulher…” — O meu olhar responde-te sem que seja preciso dizer uma palavra.
“Eu sei, eu sei. Não há justiça nenhuma nisso. Nem divina, nem terrena. É assim apenas. Por vezes este tipo de coisas, por mais injustas que pareçam — e muitas vezes o são — apenas servem para vos por à prova. Nem sempre serão provas de fé como muitos querem crer, mas serão sempre provas. Diz-me, que aprendeste nos últimos anos? Quantas foram as vezes que quiseste voltar a ser o que eras dantes e te encolheste perante as perspectivas de um futuro assustadoramente real e absurdo? E o que fizeste? É essa a tua prova. No dia em que tu e eu estivermos aqui pela última vez nesta condição como hoje estamos, nesse dia, irás compreender isso. Depois, mais tarde, quem sabe se não estarás tu aqui a falar com alguém que precise, tal como tu hoje…”
Eu sabia que ELE tinha razão. Eu sabia. E no fundo…
“É dificil, não é?”
ELE sabe sempre tudo…
Puto (1999)
Puto
Hoje acordas para mais um dia sem sol.
Puto
Para quem todas as ruas são camas
E os eléctricos são viagens ao mundo dos homens
Sombras de uma vida sem risos, sem esperança
Nos olhos baços dos putos que nunca chegaram a ser crianças.
Tu, puto
Que tratas as putas e os chulos por tu
E para quem todas as pedras são brinquedos
Todas os brinquedos são armas
Todos as emoções são medos.
Tu, puto
Todos os sonhos do mundo são teus.
Que hoje vagueias por mais uns trocos perdidos
E o cheiro da cola se confunde com a humilhação e os sentidos.
Tu, que tens o chão onde dormes por amigo, o cartão por abrigo
Tens o mundo por inimigo.
Puto
Quando olhas, o que vês?
E os olhares indiferentes de quem passa?
E os dias que passam sem nada de novo se passar
E os ventos que te adormecem e te escondem do perigo.
Puto
Todos os perigos do mundo são teus.
As últimas palavras são sempre amargas
Já te perdi
Algures entre o dia em que te vi
Pela primeira vez
E o último suspiro
Já nem sei onde procurar
As memórias que nunca tivemos
Se algum dia, desde que sem ti
Pela última vez
Ao som do último tiro
Pousaste a arma no peito
Inerte ainda te amei
Num brilho extinto
Fogo fátuo por atear
Já te perdi
Quando a vida fugiu de mim
Pela primeira vez
No último ar que respiro…
Estórias de Outras Lisboas (1999)
“As autoridades competentes estão reunidas de emergência… ainda não se sabe se as forças militares intra-regionais irão entrar em campo, no entanto temos notícias de uma considerável aglomeração de forças hostis a sul da capital… será actualizada sempre que possível.…”
Mariana tinha acabado com o namorado do momento. Cansava-se depressa. E depois, todos os rapazes da sua idade só pensavam em sexo. E de sexo estava ela farta. Já não podia com eles, os rapazes do bairro. Sempre a mesma coisa. Os dias passavam-se sem que nada se passasse e sempre a mesma coisa. É o que da passar o verão em casa. Uma m*, é o que é.
…Mas isso são pormenores.
Desceu a escadaria que ia dar ao rio. Mariana gostava de ir passear até à beira-rio. Foi aí que conhecera o seu primeiro amor. Foi aí que tivera o seu primeiro encontro. Foi aí que tivera o seu primeiro desgosto.
A lua ia já bem alto quando Mariana se sentou. Pés a roçar a superfície das águas revoltas de um Tejo de outras eras. Mariana não o sabia.
Havia muitas coisas que Mariana não sabia. Essa era só uma delas. Ela tinha consciência disso mas não se deixava incomodar. A escola da vida era tudo o que necessitava. Os estudos são para os ricos, dizia com frequência. Ela estava mais à vontade com as ruas de Alfama do que os outros, os ricos alguma vez estariam. Ali aprendia-se muita coisa. Nem mesmo o maior dos literatos poderia alguma vez saber o que era viver ali, onde as ruas são mais pequenas que os corredores dos literatos.
Não sei se deveria estar a falar em literatos, com o respeito que lhes tenho, mas limito-me a relatar este episódio da vida de Mariana tal qual guia turístico. Sorriso lavado nos dentes e um desejo escondido de sair daqui para fora.
Mariana olhou para cima, em direcção ao sul. Encontrou a outra margem. Desejou ter asas para voar. Queria saber o que havia do outro lado.
Mariana nunca havia saído de Lisboa, nem mesmo para ir à terra de seus avós. Nunca se perguntara porquê. Nunca se importara com isso. O seu mundo chegava-lhe, enchia-lhe as medidas. Mas o sul, a outra margem, ali estava o seu pote de ouro. Embora raramente tivesse visto o arco-íris, sabia perfeitamente que era ali que se escondia o pote de ouro. O “seu” pote de ouro. Isso Mariana sabia.
Uma lágrima que timidamente se tinha escondido durante a derradeira discussão com o agora ex-namorado saltou aliviada. Mas não foi por esse quase-amor desfeito. Mariana sabia poupar os seus recursos naturais, incluindo as suas lágrimas. Havia muito poucas coisas com que Mariana chorara durante a sua curta vida. Nem se lembrava quais. Não deveriam ter sido assim tão marcantes, para que não se lembrasse. Sendo assim, então provavelmente teriam sido uma perda de tempo e de lágrimas. Mariana agora chorava pelo rio. Ela amava aquele rio, mas era o rio que a impedia de ir ter com o seu pote de ouro.
Muitas vezes tinha ouvido as estórias que os mais velhos contavam da travessia do Tejo. Houve quem o tivesse tentado a nado, sem sucesso.
Outrora, noutros tempos de que já a memória nos traía, teriam existido pontes, dizem. Haviam veículos que fariam a travessia sobre as águas. Hoje de nada serviriam. As marés tinham subido e os barcos já não atravessavam o Tejo. Pelo menos para o outro lado. Hoje Mariana chorava por isso. Não percebia porque não se podia atravessar para outro lado. Sabia, pelos mais velhos, que costumavam ser parte do mesmo país. Sabia que assim era antes do que eles chamavam de praga dos R’s. Hoje estavam em disputas constantes. Lutava-se pela soberania do rio. Mas o rio não é de ninguém, pensava Mariana. O rio é alimento do mar. O rio é o rio, nada mais. Muitas vezes mandavam-na calar. Diziam-lhe que estava a ser subversiva, que se teriam que desculpar com a polícia pela sua impertinência, usando como motivo para tal comportamento a sua idade e ignorância. Mariana sabia que era ignorante. Não precisava que lho lembrassem.
E agora, que fazer? Sentada à beira rio, pés molhados, sonhando com o “seu pote de ouro”, Mariana deixava derramar mais lágrimas do que queria.
Mariana estava a chegar ao fim das suas forças. Já não tinha muitos motivos porque poupar os seus recursos. Talvez fosse melhor ir para casa.
Amanhã tinha que ir trabalhar na fábrica de reciclagem de plásticos de um político qualquer. Um daqueles que apareciam na televisão a falar sobre o ambiente. Um daqueles que não o respeitavam. Mais um. Mariana sabia-o, mesmo sem o saber. Tinha-o lido nos olhos do patrão. Político.
Sim, Mariana sabia-o…
O dia chegou como tinha ido. Frio, cinzento, escuro, obscuro. Tudo isso contribuía para o mal estar geral da população. Mas com já ia sendo costume e os costumes muitas vezes tornam-se hábitos que por sua vez se tornam tradições, já ninguém se importava muito com isso.
Mariana já se tinha lavado, vestido e alimentado quando os primeiros raios de sol apareceram, comodamente escondidos entre duas ou três nuvens. Mais uma vez desceu as escadas que a levavam ao rio. Fazia sempre este caminho, embora fosse o mais longo. Gostava de acompanhar o rio enquanto ia para o trabalho. Por vezes parecia-lhe que o rio corria em sentido contrário só para a acompanhar, mas devia ser o sono que ainda persistia em ocupar-lhe o corpo e a alma a pregar-lhe uma partida. Olhava para a outra margem. Para o seu pote de ouro.
“Temos confirmação de um ataque… teme-se o desencadear de uma guerra já há muito contida…”
Mariana viu. Mariana viu tudo. O seu pote de ouro. Mariana viu-o. Brilhava como nunca vira nada brilhar. Nem mesmo o sol, naqueles filmes americanos que via na televisão. Maria soube então que era aquele o seu pote de ouro.
O seu e de mais ninguém. Tinha-lhe sorrido, iluminava-a, a ela e ao rio.
Sentiu que levantara voo. Nunca mais teria que se preocupar com a reciclagem de plásticos, com o olhar escuro e no entanto transparente do seu patrão. Político. Nunca mais teria que descer as escadas para ficar só, nem mesmo os rapazes lá do bairro a incomodariam. Mariana soube. Pela primeira vez na vida soube. Tudo aquilo que nunca soubera. Mesmo aquilo que os mais velhos não ousaram contar-lhe. O seu pote de ouro estava ali, cada vez mais perto. Mariana viu-o…
Mariana nunca mais viu…
O Cigarro
Acende
Rasga o ar que respiro
Aquece o frio que me pertence
Ocupa-me o pensamento
Distrai-me do que quero pensar
Rouba-me o tempo de ócio
Adorna o tempo de trabalho
Aconchega o dia que finda
Adormece a alvorada do sonho
Apaga-me.
Sem Título (1998)
Saltam lágrimas do asfalto
Quando passa a senhora
Que nos leva ao altar
Do matrimónio com a morte
Assinamos os compromissos a sangue
No asfalto a borracha
Deixa-nos o odor fétido
De carne temperada a alcoól
Nesta última refeição
De egoista estupidez
O Rio (1998)
Movimento errante este
Que me leva até ao mar
Na dúvida que em mim persiste
Que margem devo abraçar.