Nasci no meu do barro e a terra que me moldou a vontade de ser livre.
Criei-me nas pedras da calçada e fiz do alcatrão companheiro de viagem.
Hoje sou um com o cimento das cidades e sonho com o verde dos campos.
Enquanto nado no sal das praias urbanas e me seco nas planícies.
Nasci, criei-me e sou tudo o que sempre quiz…
Excepto o que ficou por ser… Confiando no Karma, outras vidas haverá por viver.
Namaste
É chegado o momento em que o mundo se divide e cada um de nós tem que escolher um lado.
É chegado o momento em que todas as decisões são finais.
É chegado o momento em que as lágrimas devem ficar para depois.
É chegado o momento em que o gume da faca divide o ar em dois.
É chegado o momento em que as palavras se tornam armas.
É chegado o momento em que recolhemos às memórias para abraçar o futuro.
É chegado o momento de reconhecer o fracasso para vencer.
É chegado o momento de todos os momentos.
Que orgulho poderemos ter num pais em que o presidente da república (e escrevo-os em minúsculas propositadamente) quando o mesmo apenas diz que fez o que era de sua competência e nada mais na despedida de um dos maiores vultos da cultura portuguesa. Independentemente das cores políticas, opções religiosas e quaisquer outras definições de carácter e gostos pessoais, Saramago foi e sempre será um dos grandes. O, até agora, único Nobel da literatura português. E o nosso presidente deixa-se estar nas suas feriazinhas hipócritas nos Açores. Muito bem, assim terás muitos apoios nas próximas presidenciais…
Pois bem, Sr. presidente, quando V.Exª. bater a bota, espero que o presidente em funções nessa altura lhe faça o mesmo. Sim, porque a sua obra só deverá merecer o que é da (in)competência do estado português e nada mais…
E depois vem a vergonha que todos os católicos deveriam sentir quando a sua igreja ataca um homem como Saramago após a sua morte. Bonito, sim senhor. Não sendo católico não posso comentar muito mais do que o que já disse. Uma vergonha.
E, parafraseando alguém que ouvi na televisão — lamento mas não ouvi o autor — “não há palavras, Saramago levou-as todas…”
Quem dera tirar a máscara
Deitar o lixo a prudência
Dizer ao mundo tudo o que me vai na alma.
Quem me dera poder ser eu
Sem medo de magoar
Nem ter porque me conter.
Quem dera despir o farrapo que me tornei
Largar as lágrimas
Soltar o grito
E por fim deixar-me cair
Depois do último soluçar
E da última lágrima secar no seu trilho.
E tudo para poder tirar a máscara.
Hoje, confesso-me fracasso.
Sem rancores, sem temores, sem nada.
Despido de mim mesmo, sem sequer a máscara de palhaço
Que me protegia do reflexo de mim mesmo.
Tornei-me farrapo humano, cansaço em pó.
E deixei cair as mãos, agora inertes, ao longo do corpo.
Esse mesmo que já não me pertence, apenas resiste por impulsos biológicos.
Intinto animal, que me atraiçoa ao não me deixar partir.
Deveria ter morrido hoje, mas não.
O coração insiste em bater mais uma e outra vez.
Os pulmões enchem-se de ar.
E assim ando por ai, meio à toa, perdido no mundo que construí para mim.
Só me resta que alguém me encontre e me recolha, dando-me abrigo da minha própria nuvem cinzenta,
Ou que acabem com o meu sofrimento. Uma bala apenas bastaria.
O som oco, um clarão e uma nuvem de fumo e pronto, fui…
Trazes nos olhos a lembrança
De um dia em que esses olhos de criança
Viveram dias de esperança
Mostraste-me a alma
Quando nada mais tinhas a mostrar
Trazes no rosto o peso
Dos anos que passaram pesarosos
E as marcas de dias saudosos
Deixas-te-me ser em ti
Tudo aquilo que já não conseguias ser ou sonhar
Trazes a saudade marcada
Na pele pelos anos gravada
Dessa tua vida abandonada
Abriste-me a porta um dia
Mas hoje estava fechada…
Gostaria de me apaixonar novamente.
Sentir as borboletas no estômago, a boca seca e não conseguir falar.
Sentir que o chão me foge debaixo dos pés, sempre que estou a teu lado.
Gostaria de me apaixonar novamente.
Para que nada do que sinto fosse senão uma ilusão,
E a minha vida se fizesse num tapete de nuvens e algodão doce.
Gostaria de me apaixonar novamente.
Para que esta sensação de abandono não fosse em vão,
E as memórias do presente me sorrissem no futuro.
Gostaria de me apaixonar novamente.
Para que amanhã o passado não fossem lágrimas
E o sol brilhasse mais intenso do que imaginado.
Gostaria de me apaixonar novamente.
Para que estas palavras não fizessem sentido
E não tivesse que escrever
Gostaria de me apaixonar novamente.…
Trazem demais memórias, as palavras. Trazem-te de volta e ao mesmo tempo levando-te. É sempre fácil escrever que te amo. E que tudo ficará bem, em tom suave e calmo…
E a minha calma aparente deixa uma marca de corrosão na minha alma. E a minha alma, o meu ser, tudo o que sou se pergunta:
“E se depois descobres que estás na lama, que todas as tuas palavras arrastaram numa torrente de soluços contidos e lágrimas disfarçadas pelo fumo dos dias.
Corres para onde te sentes bem, a tua base, o teu refúgio. Choras, abres as comportas e soluças compulsivamente. Deixas a corrente esgotar-se enquanto te esgotas também.
Mas, e se não tens para onde ir? O teu refúgio não é refúgio. As tuas bases são agora areias movediças onde tentas movimentar-te o suficiente para não te deixares afundar.
Corres, mas sem destino. Deixas que o ar da cidade te disfarce os soluços e que a solidão da fuga te esconda, à vista de todos.
E depois? Um copo num bar onde encontras quem conheces e que te conhece. Onde podes deixar sair a tua persona social e finges que nada se passa.
São estes os teus dias, as tuas noites. Não te deixes dormir. Não deixes que te acordem.
Esconde a dor, no fundo de um copo, num soluço, no sal das lágrimas.
E deixa-te levar…”
Chega um novo dia, acordo como se a noite passada não fosse nada de importante. E no fundo, não o é. Simplesmente porque é igual a tantas outras e como a de hoje será.
Amanhã… Amanhã logo se verá…
Terei deixado o corpo carcaça lá atrás, algures no caminho.
Terei sonhado com o alcançar da meta, ou ter-me-ei perdido na ilusão da partida.
Terei largado a pele e deixado cair os ossos no percurso. Terei sido corpo o etéreo…
Senti o toque de quem troquei carícias. Senti a voz e os cheiros de quem me tocou.
Senti o calor na troca das salivas. O fulgor animal dos sexos. O suor dos corpos.
Senti a saudade pelos que já não voltam. A ansiedade pelos que regressam.
Senti tudo e todos que me sentiram. Não senti o que não havia para sentir.
Caminhei ao longo desse sinuoso percurso que me foi traçado.
Caminhei ao longo do percurso que tracei para mim.
E assim cheguei à minha meta, à minha próxima partida.
Depois de um jantar indiano bem regado, uma noite de conversa temperada de vinho tinto e umas horas no Plateau, há algumas coisas que merecem ser ditas.
Antes de mais, depois de 12 anos, regressar ao Plateau é uma sensação, no mínimo, estranha. Logo ao entrar sou brindado com Madonna… (isto não ouvia eu na altura, pensei). Não muito mais tarde, as Doce seguidas do hino nacional, “A Portuguesa”, reafirmaram o que eu pensava. É o mesmo local, com a decoração sempre impecável, Mulheres lindas — embora as diferenças de idade já se façam sentir — mas, apesar de tudo, já não é o mesmo sítio. Ainda assim, soube muito bem. Confesso que, depois de uma noites destas, chegar a casa às 6:30 a.m. já é um pouco demais para mim. Já não tenho muita paciência nem stamina para estar a noites toda a levar com fumo (sou ex-fumador) e barulho.
Dito isto, há ainda uns detalhes. Não há melhor que um jantar com gente amiga. Não há melhor que uma noite com tinto relembrando as amizades e maluqueiras da adolescência. E não há melhor do que sentir o ar fresco da manhã depois de uma noite destas.