Tento perder-me entre as linhas de um livro. Inspiro os sons de uma qualquer melodia. Tudo para que possa escrever-te o mais belo poema.
Mas as forças faltam-me para erguer a pena com a convicção que seria necessária. Para poder dizer-te tudo o que me vai na alma. E faze-lo com as palavras mais belas e as rimas mais singulares. Com a doçura de uma canção de amor e a raiva de um poema de Ary dos Santos. Não consigo escrever assim.
Poderia tentar plagiar um qualquer poeta romântico, mas ai as palavras não seriam minhas nem teriam sido escritas para ti.
Poderia ensaiar umas rimas já comprovadas, mas mereces mais do que algo já dito e rescrito, cantado e sem nada de novo por dizer.
No fim da noite, já cansado da vida, deixo-me adormecer, sem nunca ter a certeza de acordar no dia seguinte. Sem nunca saber se voltarei a escrever-te, a olhar-te, a ouvir-te.
Então os sonhos tomam conta de mim, e ao menos ai, sinto-me dono e senhor da oratória, falando-te em sussurro ao ouvido palavras que nunca te direi em público. E ai a poesia seria escrita por nós dois, ao entregarmo-nos ao destino. O nosso.
A poesia que não te escrevi
Só a tua presença me completa
Hoje vesti a camisa que penso que gostas de ver quando nos encontramos. Não sei qual o motivo mas sempre me pareceu que gostasses de me ver nesta. Idiotice, talvez. Mas vesti-a a pensar que me iria encontrar contigo. E, no fim de contas, não aconteceu esse encontro, já antecipado e ansiado. Imprevistos, naturalmente.
Não fiquei preocupado, chateado nem sentido com isso. Mas deu-me a entender duas coisas. 1º Podemos vestir a camisa que pensamos que gostem de ver e nunca ser vistos. 2º Apercebi-me que, com tanta coisa que temos em comum, há muita mais que desconhecemos — ou pelo menos desconheço — e que nem sequer temos em conjunto ou partilhado.
Senão, vejamos… Lembras-te a data em que nos conhecemos? Confesso que não. Tenho ideia do ano e da estação do ano e pouco mais… Lembras-te do que vestia nesse dia? Eu recordo-me vagamente de uma camisola tua, de uma caneta e um ar condicionado… E tu? E alguma vez tivemos uma música que pudéssemos apelidar de “nossa”? Mais, haverá algures uma única fotografia nossa, juntos? E, aparte do que venho constatando dos nossos encontros esporádicos, os nossos gostos até nem são assim tão comuns. Habitualmente não ouço a mesma música que tu, não vejo os mesmos filmes, e provavelmente nem leio os mesmos livros.
No entanto, mesmo com tanta disparidade, só a tua presença me completa.
IPhone memories
Na solidão do meu sofá, muitas vezes cama, despejo o que me vai na alma via iPhone. Porquê? Deixei o Mac no escritório. E logo num dia em que me apetece escrever.
Mas não vou passar a noite a teclar aqui. Vou voltar às raizes. Pegar na caneta e num pedaço de papel. Sentar-me à mesa. E escrever. Apenas escrever. E, caso aquilo que escreva seja “postable”, amanhã transcrevo-o para aqui. E depois podem comentar ( ou não ).
Moral? Nunca deixar cá dentro o que anseia por sair. Seja uma palavra, uma lágrima, um grito ou apenas um olhar em silêncio.
Até amanhã…
Catarsis…
Ao rever mais um filme denominado comedia romântica, apercebo-me que há uma constante na minha vida. Uma verdade universal, que pode ou não ser exclusiva da minha forma de encarar o mundo, mas que ainda assim me deixa mais triste e com o sangue a ferver. E tudo porque, de facto, sei muito bem que é assim. E sei-o há muito tempo. E não faço nada em relação a isso.
Independentemente dos sobressaltos de uma vida, das partidas que a vida nos prega, temos que ser nós a lutar pela vida que queremos, por oposição a esperar que as peças se encaixem por obra e graça do espírito santo…
E, claro, que com o reconhecimento desse facto, enfatizado pelo visionamento dessa realidade em “true hollywood form”, a raivinha cresce cá dentro e a sensação de impotência que temos como companheira dia após dia fazem com que entremos numa verdadeira espiral descendente.
A questão é, depois disto tudo, o que fazer?
A resposta, embora óbvia, é a mais difícil de todas. E falar, ou escrever, sobre o assunto, embora catártico, não chega para uma boa noite se sono.
A última boa noite de sono que tive, passei-a no Hospital de Santa Marta, na última semana antes de ter alta. Já passou mais de um ano.
E é assim que acabo de ver mais uma produção tipificada do romance a cordel que todos gostamos, quer o admitamos ou não…
The Reason
Revejo nesta musica a esperança com que acordo todos os dias, mesmo que o cinzento do passado e a incerteza do futuro me acompanhem a cada minuto…
The Reason — Hoobastank
Da raiva…
Ah! A raiva que se acumula no peito e a garganta que incha latejando. A vontade de gritar ao mundo e de sair. Fugir de quem somos. Nem que seja por um momento.
Cansado de gritar em silêncio. Cansado de merda. Cansado de lágrimas. Cansado de tanta raiva contida. Cansado de tanto cansaço.
Deitar cá para fora as entranhas. Deitá-las ao sol e deixar que queimem. Que cozam. E depois perder-me num banho de mar eterno.
Fugir ao paraíso com blasfémias. Optar pelas profundezas. Tudo para me esquecer que existo, aqui, agora.
Mas a raiva, essa teima em não me deixar em paz. Preciso de um escape. De um saco de boxe onde descarregar. Em sentido figurado. Em sentido lato.
Só depois, deixando-me abandonar ao desespero, me entrego. Até lá, deixar que a raiva me carregue e subsistir às suas custas.
Serei cobarde? Concerteza. Mas palhaço? Nunca! Com a raiva que se enraiza ganharei forças para me soltar da escravidão.
Perdido, isolado
Sinto-me perdido, isolado.
As minhas bases nao existem mais.
As minhas ancoras partiram-se e eu fiquei à deriva.
Restam-me os desabafos e a música mais ou menos melancólica.
Restam-me os copos de vinho tinto que saboreio em ocasionais noites de fuga.
Restam-me as lágrimas e soluços contidos, escondidos do mundo.
Anos depois deslindo o mistério das minhas acções.
Anos depois penso no que teria acontecido se tivesse agido de outra forma.
E mesmo depois de muito pensar e das óbvias conclusões,
Sinto-me perdido, isolado.
Porque me perdi, me isolei.
Deixei-me perder, nunca me encontrei.
Porque trouxe comigo a solidão a que me abandonei.
Restam-me os jogos de palavras, tristes rimas.
Restam-me os erros gramaticais
Que minimizam a força dos gritos.
Que permitem que as lágrimas sequem.
Que me deixam ainda mais perdido.
Sinto-me perdido, isolado.
Sem mais palavra escrita, sem mais um traço dado…
Destino ou ajuda…
A vida, como a conhecemos, hoje e sempre. Um encadeado de acontecimentos. Muitos aparentemente sem ligação lógica ou plausível.
E, no entanto, seguimos pela vida fora sem prestar a devida atenção a estes acontecimentos. Depois, normalmente quando é tarde de mais, culpamos o destino, os azares da vida, tudo o resto, sem nunca olharmos para dentro de nós.
Mas nem sempre é assim. Se nos dignarmos a prestar atenção, a olhar e ouvir os detalhes, pode ser que, num pequeno instante, por mais microscópico e insignificante que nos aparente, prestarmos atenção, talvez ai, nesse mesmo instante, a nossa vida mude.
A eterna disputa entre o destino nos liderar ou nós liderarmos o destino. Pessoalmente cada vez sou mais adepto da versão mista. Traçamos o nosso caminho mas de vez em quando o destino intervém e mostra-nos que há alguma coisa que precisa da nossa atenção.
Seja um encadeado de encontros e desencontros ao longo de anos com a mesma pessoa. A tal, que escapou… Porque não “agarrá-la” da próxima vez que o destino cruzar os caminhos dos dois?
Seja o encontrar um bilhete, escrito anos atrás, um número de telefone outrora perdido ou até reencontrar alguém via facebook, o destino, aquela pequena parte que não controlamos, intervém e dá-nos uma ajudinha. Basta que tenhamos os olhos e ouvidos bem abertos.
E não me venham falar de acasos. Isso então…
Reencontrar o passado.
Como escrever isto sem parecer uma besta…
Por vezes reencontramos pessoas do nosso passado. Pessoas que podem ter sido muito ou pouco importantes, mas que de alguma forma nos afectaram. Que afectaram as nossas vidas.
E depois ficamos um pouco sem graça porque a forma como nos afastámos foi, no mínimo, estranha. Ou, pior, temos culpas no cartório nesse mesmo processo.
E quando finalmente conseguimos ultrapassar os embaraços vem a parte mais difícil. Quem relação existe? O que devemos salvar do passado e o que esperar do futuro? Somos amigos como sempre fomos? Abdicámos e voltamos à fase de conhecidos com um passado? Deixamo-nos apaixonar novamente?
A pergunta chave que agora se coloca é: E depois? O que fazer agora? Cada um seguiu a sua vida. Há namorados(as), maridos(as), filhos(as). Toda uma vida pelo meio. Não é possível simplesmente apagar o que se passou entretanto, seja lá o que for. E isto serve para todos os tipos de relações. Com complicações óbvias para relações mais intensas afectivamente.
A minha sugestão? Não pensem tanto nisso. Façam exactamente o oposto do que está aqui descrito. Não se deixem levar por mariquices. O que tiver que ser, será. E pode ser que tenham uma surpresa.