Reencontrar o passado.

Como escre­ver isto sem pare­cer uma besta…

Por vezes reen­con­tra­mos pes­soas do nosso pas­sado. Pes­soas que podem ter sido muito ou pouco impor­tan­tes, mas que de alguma forma nos afec­ta­ram. Que afec­ta­ram as nos­sas vidas.

E depois fica­mos um pouco sem graça por­que a forma como nos afas­tá­mos foi, no mínimo, estra­nha. Ou, pior, temos cul­pas no car­tó­rio nesse mesmo processo.

E quando final­mente con­se­gui­mos ultra­pas­sar os emba­ra­ços vem a parte mais difí­cil. Quem rela­ção existe? O que deve­mos sal­var do pas­sado e o que espe­rar do futuro? Somos ami­gos como sem­pre fomos? Abdi­cá­mos e vol­ta­mos à fase de conhe­ci­dos com um pas­sado? Deixamo-nos apai­xo­nar novamente?

A per­gunta chave que agora se coloca é: E depois? O que fazer agora? Cada um seguiu a sua vida. Há namorados(as), maridos(as), filhos(as). Toda uma vida pelo meio. Não é pos­sí­vel sim­ples­mente apa­gar o que se pas­sou entre­tanto, seja lá o que for. E isto serve para todos os tipos de rela­ções. Com com­pli­ca­ções óbvias para rela­ções mais inten­sas afectivamente.

A minha suges­tão? Não pen­sem tanto nisso. Façam exac­ta­mente o oposto do que está aqui des­crito. Não se dei­xem levar por mari­qui­ces. O que tiver que ser, será. E pode ser que tenham uma surpresa.

Sobrevivência, tentando…

Pode­rão lá as almas sobre­vi­ver neste mundo, entre sufo­cos e afo­ga­men­tos, entre a tris­teza e o rompimento?

Somos todos iguais. O que sig­ni­fica que, que me ante­ce­deu sofreu como eu sofro, e quem me seguirá, sofrerá da mesma forma.

Só o facto de tomar cons­ci­ên­cia disto expo­nen­ci­ará ainda mais o facto de nos ter­mos por per­meá­veis às emo­ções huma­nas, trans­pa­ren­tes ao pró­ximo e per­fei­ta­mente igno­ran­tes ao pen­sar que pode­mos mudar as coisas.

E con­ti­nu­a­mos a ten­tar, a tentar…

Terá valido a pena

A medida que mais um mês anun­cia o seu fim, e as tem­pe­ra­tu­ras se ade­quam à época do ano, não posso dei­xar de me per­gun­tar se terá valido a pena. Tudo isto, terá valido a pena?

Ser pai, marido, filho, irmão, pro­fis­si­o­nal, tudo em simul­tâ­neo, é dose. E depois, o que fica?

Eu sei o que me ficou da par­tida de alguém, de forma mais ou menos per­ma­nente. Eu sei o que me custa a ausên­cia. Mas será que tudo com­pensa? Os gri­tos, as dores, a von­tade de fugir, o desejo de não ter de che­gar. Depois de tudo, o que nos fica? Será a sau­dade por uns recom­pensa sufi­ci­ente pela von­tade de ver outros ausentes?

Como encon­trar o equilibrio?

Desejo ser um bom pai mas, para con­se­guir essa tarefa her­cú­lea, terei que abdi­car de outras.

Desejo ser um  bom pro­fis­si­o­nal mas, para con­se­guir essa tarefa avas­sa­la­dora, terei que abdi­car de outras.

Desejo ser feliz mas, para isso, teria que aban­do­nar tudo…

Por­que não pode­mos fazer reset de vez em quando, como uma qual­quer máquina infer­nal? Daria tanto jeito.

E no fim de tudo apercebemo-nos que, mesmo sem valer a pena, pro­va­vel­mente faría­mos tudo de novo…

Provérbio…

Quando o sol se apa­gar e a espe­rança se tor­nar distante,

Põe pilhas novas na lan­terna e limpa os binóculos…

Do nexo…

O nexo das coi­sas, das memó­rias, das fra­ses des­pre­o­cu­pa­das nas pre­ten­sas poe­sias que te escrevo, ainda que de forma velada, para que todos os que já sabem pos­sam fin­gir não saber.

O nexo de poder­mos cau­sar bur­bu­ri­nho só pelas con­fis­sões, ora cho­can­tes, ora des­la­va­das em lágri­mas que já tei­mam em secar mesmo antes de che­gar às faces do rosto.

O nexo de poder­mos sen­tir e gri­tar por­que sen­ti­mos quando expla­na­mos a nossa vida em ver­são digi­tal de diá­rio fal­sa­mente privado.

O nexo do desejo. O nexo da sau­dade. O nexo do sexo. O nexo da liber­dade. O nexo de um beijo.

Qual será o nexo que me dei­xará satis­feito, por mais des­co­nexo que o nexo seja?

Essa será uma per­gunta para a qual a res­posta não tem nexo…

À laia de retórica…

São pou­cas as pala­vras que te deixo hoje. Fúteis e sem sen­tido, destinando-se ape­nas a um exer­cí­cio esté­tico. Ao ouvir “Resis­tance” dos Muse, res­soa na minha cabeça que tal­vez nada disto fosse neces­sá­rio. Em toda a hones­ti­dade, nem sei bem se alguma coisa, alguma vez, o terá sido. E depois, o que per­de­mos? senão rios de lágri­mas, saliva e o tempo per­dido em car­tas, imen­sas, com­pri­das, sem grande nexo.

Então, pergunto-te, à laia de retó­rica, mas nem por isso dis­pen­sando res­posta: Alguma vez me amaste?…

Da amargura…

Depois dos fac­tos, as refle­xões.
Depois das pala­vras, a amar­gura de não ter fil­trado o discurso.

Se reflec­tís­se­mos um pouco antes de agir, tal­vez não tives­se­mos tan­tos amar­gos de boca…

A ti, menina.

Menina
Nos teus olhos peque­ni­nos de cri­ança
Ainda há uma menina, mulher, cri­ança,
Engo­lindo o mundo, mer­gu­lhando fundo,
Absor­vendo cada pedaço de vida.
Quer teus olhos sejam lagoas cris­ta­li­nas,
Ave­lãs doces ou negras opa­li­nas.
Esse bri­lho que encanta e nos sorri
Quando o mundo passa perto de ti,
Não te per­cas no que o mundo te trou­xer.
Não tenhas medo, venha o que vier.
Serão ape­nas as dores de cres­ce­res,
Ape­nas as dores de te tor­na­res mulher.
E mesmo quando os teus lon­gos cabe­los se tor­na­rem bran­cos,
E o tempo já tiver pas­sado sem vol­tar atrás,
Orgulha-te do tempo e do que  o tempo traz,
Mas nunca dei­xes de ser menina.
Deixa que os teus olhos per­ma­ne­çam jóias,
Que o teu bri­lho seja por assim, eterno.
Para mim serás sem­pre menina
Envolta neste momento, abraço terno.

Porque te agarras a uma ilusão?

Por­que te agar­ras a uma ilu­são?
Por­que te agar­ras a mim como se os últi­mos anos não exis­tis­sem?
Que ima­gem tens tu da vida quando sabes que não posso estar pre­sente?
Quem sou já não quem conhe­ceste. Nem tu sabes em quem te tor­naste, entre­tanto.
Por­que te agar­ras a esta ilu­são que não te leva a outro lado que não seja a soli­dão das noi­tes e ao mutismo dos dias.
Par­ti­lha­mos o espaço mas a alma já se des­pren­deu do sonho.
Mantemo-nos aqui, agri­lho­a­dos a uma ideia que já deu tudo o que tinha a dar.
Man­te­mos as facha­das mesmo se o mundo já sabe que tudo aca­bou.
Só tu não o acei­tas. Só tu não o que­res acei­tar.
São dolo­ro­sas as horas que esta­mos jun­tos, na mesma casa.
São impa­ci­en­tes as von­ta­des de fugir, dei­xar tudo para trás.
Só me deixo aqui pelo legado, pelo san­gue. Só me deixo aqui por saber que estás numa encru­zi­lhada que afec­tará quem de ti depende. Mas sofro. E tu sofres tam­bém.
Por­que te agar­ras a uma vida que já não faz sen­tido?
Por­que me impe­des de largar-te a mão?

Sabes porquê, não sabes? Não digas que não…

A vida como deveria ser

A vida deve­ria ser apaixonarmo-nos todos os dias, mesmo se fosse pela mesma pessoa.

A vida deve­ria ser todos os por do sol do mundo a aque­cer os fins de tarde naquele pri­meiro encontro.

A vida deve­ria ser poder dizer o que nos vai na alma, sem pre­juízo para ninguém.

A vida deve­ria ser a liber­ta­ção dos sonhos sem que a rea­li­dade atrapalhe.

A vida deve­ria ser tudo o que a vida tem para nos ofe­re­cer, sem ter que tirar a ninguém.

A vida, como deve­ria ser, não deve­ria ser o que dela faze­mos, mas deve­ría­mos fazer dela o que ela nos qui­sesse dar.

Copyright © Ricardo Vercesi Picoto
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