Aos gajos que mandam e fazem as leis…

Numa altura em que o tema de con­versa pre­fe­rido do país e de todas as mesas de refei­ção é a des­graça a que isto che­gou, as tra­pa­ças a que o governo nos con­de­nou e às dívi­das a que acu­mu­la­mos numa base diá­ria, olho para a tele­vi­são e para o jor­nais e per­cebo que afi­nal não per­cebo nada disto. Ora, eu até me con­si­dero uma pes­soa culta, inte­res­sada e com um palmo de testa. Mas a ver­dade é que metade das coi­sas que ouço nos noti­ciá­rios são novi­dade ou uma con­fu­são danada. E depois vem o facto de me aper­ce­ber que, no meio disto tudo, nem mesmo o que aprendi na escola me pre­pa­rou de forma alguma para o que teria que enfren­tar na minha vida adulta. Ora então, senho­res legis­la­do­res e demais auto­ri­da­des liga­das ao ramo da edu­ca­ção, aqui fica uma suges­tão: criem uma dis­ci­plina que ensine os ado­les­cen­tes nas adver­si­da­des (na ver­dade, na buro­cra­cia, mas eu con­si­dero a buro­cra­cia uma adver­si­dade) e demais vicis­si­tu­des da vida adulta. Rela­ti­va­mente às finan­ças e meca­nis­mos asso­ci­a­dos; rela­ti­va­mente à segu­rança social; rela­ti­va­mente ao ser­viço naci­o­nal de saúde. E estes só são aque­les que me lem­bro assim de cabeça. E porquê? Agora que os recém nas­ci­dos são “con­tri­buin­tes” e pre­ci­sam do número — que­rem con­ceito mais idi­ota? — e que temos milhen­tos núme­ros que nos iden­ti­fi­cam (BI, NIF, NISS, Car­tão de Elei­tor, Carta de Con­du­ção, etc…), quando aca­ba­mos o Ensino Secun­dá­rio / Supe­rior e entra­mos na cha­mada vida “activa” (por­que antes e depois somos para­si­tas?) deparamo-nos com ban­cos e a sua len­ga­lenga, finan­ças, segu­ros, auto­mó­veis, casa, segu­rança social e demais pape­la­das e tre­tas buro­crá­ti­cas sem o mínimo de pre­pa­ra­ção. E apren­de­mos com os erros essen­ci­al­mente. Por­que nem mesmo quem nos pode­ria auxi­liar o faz. A velha máxima do fun­ci­o­na­lismo público aplica-se ainda. Nada con­tra os fun­ci­o­ná­rios públi­cos — já fui um — mas sei que, na mai­o­ria dos casos, o seu tra­ba­lho é uma seca, fei­tos por obri­ga­ção, em que são pou­cos os exem­plos de quem faça o que faz por gosto. Mas divago. A ver­dade é que, pelo menos desde a minha gera­ção — não podendo falar pelas ante­ri­o­res — que a edu­ca­ção que temos — e que somos obri­ga­dos a ter — é muito parca em noções do que é a vida civil na idade adulta. E tal­vez assim não haja no futuro tanta gente endi­vi­dada ou em incum­pri­mento das suas obri­ga­ções soci­ais. Só por­que esta­riam pre­pa­ra­das de ante­mão. Pen­sem lá nisto um bocadinho…

Mesmo que o corpo reclame

01:02, 28 Janeiro 2012…

Mais uma noite em que o sono tei­mar em não se fazer apre­sen­tar. Mais uma noite pra­ti­ca­mente em claro. Lá pelas 3 ou 4 da manhã dou por mim a dor­mir em frente ao teclado e acabo por me ir dei­tar, ape­nas para me levan­tar meia hora mais tarde. São mui­tas noi­tes sem dor­mir e o corpo recente-se. A ten­são arte­rial dá conta de si. Sinto o bater do cora­ção forte no peito. Presto aten­ção aos sinais mas não há muito que possa fazer. Preocupo-me. Deixo-me levar pelos pen­sa­men­tos. E mais uma noite se pas­sou em que durmo ape­nas 2 ou 3 horas, sal­te­a­das de diver­sos acor­da­res em sobres­salto. Preocupo-me. Tenho medo. Por mim. Por elas. Por­que sei que o tempo urge. Por­que cada dia que passa é um dia a menos. A morte nunca me assus­tou tanto como agora. E passo as noi­tes em branco. Depois ador­meço quase ao raiar do dia e acabo por ter que me levan­tar quando estou a entrar num sono pro­fundo. O corpo reclama. As dores de cabeça são quase uma cons­tante. Presto aten­ção aos sinais mas não há muito que possa fazer. Preocupo-me, tenho medo e assusto-me com a pers­pec­tiva de um futuro que se anun­cia negro. Vive­mos dias difí­ceis. Para qual­quer lado que olhe­mos, a des­graça deste país é uma rea­li­dade cada vez mais pre­sente. Cada vez mais evi­dente. Para qual­quer lado que olhe­mos, as solu­ções parecem-nos dis­tan­tes, quase impos­sí­veis de alcan­çar. Tam­bém por isso, não durmo. Sem emprego, sem pers­pec­ti­vas sóli­das. Com dívi­das que se acu­mu­lam mês a mês. Preocupo-me. O corpo reclama. Mas as pri­o­ri­da­des são outras. E por isso não durmo. E o corpo reclama. Sinto o cora­ção bater. Forte. No peito. Presto aten­ção aos sinais mas não muito que possa fazer. A não ser preocupar-me, ter medo… Mesmo não con­se­guindo dor­mir. Mesmo que o corpo reclame.

Bem vindos a 2012

Há algo de estra­nha­mente poé­tico quando se passa a meia noite de uma pas­sa­gem de ano a escre­ver um texto no com­pu­ta­dor para publi­car numa qual­quer rede social.

As miú­das dor­mem pro­fun­da­mente. Os ani­mais aninham-se nos seus recan­tos pre­fe­ri­dos. Nós, os adul­tos, faze­mos o que seria de espe­rar num dia qual­quer do ano. Tra­ta­mos da casa, visi­ta­mos o Face­book… pois, o Face­book. Já faz parte das nos­sas vidas, quer quei­ra­mos, quer não. E parte da rotina diá­ria. Assim, tal como em qual­quer dia do ano de 2011 e pos­si­vel­mente de 2012, aqui me encon­tro, com mais um texto (o 1041º desde blog — nem dei pela pas­sa­gem do 1000º). E que melhor assunto senão o Face­book em si.

Res­pon­sá­vel único pela perda de ren­di­mento pro­fis­si­o­nal e esco­lar de mais de meio mundo, esta rede social em cons­tante muta­ção — e sem­pre com muita con­tro­ver­sia à mis­tura — tem vindo a con­quis­tar o cibe­res­paço. E o nosso tempo livre, mas não só. Sendo assim, reforço a minha men­sa­gem de pas­sa­gem de ano a todos os que me seguem ou de quem faço parte da lista de “ami­gos” dizendo ape­nas: Bem vin­dos a 2012!

A árvore de Natal

A minha vida está uma con­fu­são. Como a de mui­tos e mui­tos por­tu­gue­ses — e não só. A crise generaliza-se. Há quem perca o emprego, quem perca a saúde e não possa pagar pelos cui­da­dos bási­cos. Há quem se sinta divi­dido entre uma soci­e­dade que já não tem muito a ofe­re­cer e o sui­cí­dio. Há quem emi­gre, há quem caia nas malhas da lei por ser apa­nhado a rou­bar para sobre­vi­ver. Há his­tó­rias depri­men­tes para todos os gos­tos. E a minha não é das mais animadoras.

Ainda assim, dia 23 a minha mulher reu­niu for­ças — nunca me canso de ficar espan­tado com a capa­ci­dade dela para estas coi­sas — e em pou­cas horas mon­tou a árvore de Natal. Só para que as miú­das tives­sem uma para colo­car as — pou­cas — pren­das que tinham para abrir. Tam­bém à última da hora, uma oferta de Natal ines­pe­rada per­mi­tiu que com­prasse uns mimi­nhos para elas.

Quando che­guei a casa com elas na tarde de 23, o olhar deli­ci­ado delas e, com a che­gada a meia-noite de 24 para 25, ao desa­ta­rem a ras­gar papel de embru­lho e a olhar em extase para os brin­que­dos e as luzes, tudo isso faz com que valha a pena pas­sar por mais 364 dias* de cons­tante dor e sofri­mento, ape­nas por saber que há 1 dia por ano elas se sen­tem com­ple­ta­mente mara­vi­lha­das. E, mesmo que o Natal não nos diga nada em espe­cial — como é o meu caso, pelo menos sabe­mos que faze­mos algo de bom pelos nos­sos filhos. E, meus ami­gos, não há nada melhor no mundo do que saber que os nos­sos filhos con­se­guem sor­rir ver­da­dei­ra­mente feli­zes. Nem que seja por uma sim­ples árvore de Natal.

 

*na verdade há mais, ainda bem, mas para esta pequena dissertação...

Do orador aflito…

Já não há mais nada a dizer, quanto tudo o que se diz são pala­vras
Sem con­texto, sem nada por saber… e sem a força com que as lavras

Na tua boca, um sor­riso que outrora se tor­nara em grito
Hoje , não é mais que um sus­piro nunca constrito

As dis­so­nân­cias atordoam-me a fala, o dis­curso prende-me a lín­gua
E a von­tade de gri­tar torna-se  torna-se míngua

Fica então tudo por dizer, por­que tudo o que pode­ria ter sido dito
Perdeu-se no con­texto, na mín­gua das pala­vras do ora­dor aflito

Do despesismo…

É che­gada a altura do ano em que me dis­po­nho a escre­ver qual­quer coisa sobre a hipo­cri­sia. Habi­tu­al­mente des­crevo a imbe­ci­li­dade de ter­mos uma ati­tude estu­pi­da­mente des­pe­sista e depois ten­tar­mos por pani­nhos quen­tes com a doa­ção de um saco de arroz ao Banco Ali­men­tar ou uma qual­quer acção de soli­da­ri­e­dade. Repare-se que não me opo­nho a essas acções, antes pelo con­trá­rio. O que me cha­teia é não serem fei­tas ao longo do ano inteiro. Mas sem­pre o fiz — a dita dia­tribe sobre a hipo­cri­sia — do ponto de vista de quem pode fazer algo mais por aque­les que não têm ou não podem.

E, de repente, vejo-me no outro lado da bar­ri­cada. Não me encon­tro em estado de pobreza ou misé­ria abso­luta. Longe disso. Mas não me encon­tro pro­pri­a­mente à von­tade, como o ano pas­sado, por exem­plo. Desde Junho que não tenho um orde­nado fixo. E estou a haver tra­ba­lhos diver­sos, de cli­en­tes diver­sos, desde Agosto. Ora, na actual con­jun­tura, numa famí­lia de 5 (mais ani­mais) em que só o meu ren­di­mento é que conta, é um rombo des­co­mu­nal. Ao ponto de ter con­tas, pres­ta­ções, ren­das e um pouco de tudo o mais em atraso. E isto leva a que se colo­que as coi­sas em pers­pec­tiva. É curi­oso como as coi­sas mudam. Há 2 anos, por esta altura ado­eci. Estive hos­pi­ta­li­zado 4 meses. Perdi a minha mãe para uma doença idi­ota que aflige a minha mulher. E ai, tudo mudou. As pri­o­ri­da­des são outras. Hoje, com a falta de meios mate­ri­ais cada vez mais acen­tu­ada, revejo mais uma vez essas pri­o­ri­da­des. É duro, dei­xem que vos diga. É muito duro sen­tir que o pouco dinheiro que temos — não tenho direito a sub­sí­dio de desem­prego — é curto até para com­prar comida. Ali­men­tar 3 cri­an­ças, vesti-las. Essas são as nos­sas pri­o­ri­da­des. O resto, logo se verá. Ren­das, con­tas — pagas sem­pre à última e mui­tas vezes com ajuda de ami­gos — e as pres­ta­ções ao banco, tudo tomam uma dimen­são per­fei­ta­mente dimi­nuta perante a pos­si­bi­li­dade de não ter­mos sequer um iogurte, um pacote de leite.

Dito isto, parece-me que, ainda assim, haverá quem esteja em pio­res con­di­ções do que eu. E eu per­gunto: como con­se­guem? Como é que se con­se­gue viver neste país com orde­na­dos dimi­nu­tos, com pen­sões irri­só­rias. Como é que se per­mite que a um paci­ente cró­nico com 80% de inca­pa­ci­dade seja recu­sada a reforma por uma junta médica, por duas vezes, sem qual­quer apoio do estado? E os res­tan­tes, que por aí have­rão em cir­cuns­tân­cias ainda pio­res? Depois admiram-se de ver notí­cias, como a que li hoje num blo­gue, de uma famí­lia inteira — cri­an­ças incluí­das — que se ati­ra­ram da ponte da Arrá­bida (http://t.co/9wMEerZS) deses­pe­ra­dos que esta­vam com a crise deste país…

E, o que me lixa é depois ver anún­cios na TV, como o que aca­bei de ver há minu­tos — que me per­doe a Rita Salema, que con­si­dero uma exce­lente pro­fis­si­o­nal — em que se anun­cia um con­curso e que uma suposta con­cor­rente anun­cia que remo­de­lará a casa e reno­vará o guarda roupa e com­prará mui­tos pre­sen­tes… Numa altura em que o prato do dia nas notí­cias é a aus­te­ri­dade, os anún­cios em que se pro­pa­ganda o des­pe­sismo não caiem muito bem com aque­les — como eu — que não estão lá muito bem de finan­ças… Pen­sem nisto.

Farpas…

Far­pas,

Peque­nas pon­ta­das de dor que se apro­fun­dam na pele e se entranham.

 

São assim as far­pas que me dominam.

As minhas prisões — Capítulo VII

Já dei vol­tas à cabeça e nem sei por onde come­çar. A minha pri­são, o meu cubí­culo de cimento, está a enco­lher. As pare­des aproximam-se e a sen­sa­ção de claus­tro­fo­bia incon­tro­lada instala-se. Pre­ciso de gri­tar, exte­ri­o­ri­zar a raiva, a frus­ta­ção. Estar sem emprego fixo há mais de 4 meses tem des­tas coi­sas. Sabe­mos do que somos capa­zes, sabe­mos as nos­sas limi­ta­ções — con­vém mesmo ser rea­lis­tas — e nem assim. Aguar­dar por uma cha­mada, por uma pro­posta e, simul­ta­ne­a­mente, lutar, todos os dias, por um tra­ba­lho, um pro­jecto que apa­reça. Algo que me pos­si­bi­lite res­pi­rar, que afaste as pare­des desta prisão.

Lutar, todos os dias. Saber que temos quem dependa de nós. Saber que há con­tas para pagar, ban­cos, estado, esco­las, ren­das, con­tas… e não poder fazê-lo. Dói, enquanto pai, enquanto homem — supos­ta­mente — adulto. E faz-nos pen­sar nas coi­sas que per­de­mos pelo cami­nho. Não é por von­tade de vol­tar atrás ou de seguir outro cami­nho. É ape­nas a neces­si­dade inata de nos per­gun­tar­mos “e se…”. Seja como for, o facto é que, na vida, ape­sar de pre­vi­sí­vel na gene­ra­li­dade, a sequên­cia de even­tos, ainda que pre­vi­sí­vel no seu des­tino ina­diá­vel, é, muita das vezes, uma ver­da­deira caixa de surpresas.

Veja­mos… a ado­les­cên­cia, trau­ma­ti­zante por natu­reza. Depri­mente, rebelde, seja o que for, é um vul­cão de asnei­rada pegada que todos faze­mos (e os que não as fazem nessa altura, irão fazê-las mais tarde, com con­sequên­cias ines­pe­ra­das — ou não). É suposto estu­dar­mos para “ser alguém na vida”. O que é isso? Ser alguém na vida? Se eu não estu­dar perco o direito ao meu nome? Perco a minha indi­vi­du­a­li­dade? Inva­ri­a­vel­mente, a dada altura, todos nos per­gun­ta­mos qual o objec­tivo? Para quê estu­dar? Com que objec­tivo? Ape­nas finan­ceiro? Será esse o cerne de todos os males da nossa soci­e­dade? De ado­les­cen­tes somos pro­gra­ma­dos para ser finan­cei­ra­mente viá­veis e ape­nas isso? Algo a deba­ter mais tarde…

… (con­ti­nua)

As minhas prisões — Capítulo VI

Subi­ta­mente apercebo-me que já me des­viei mui­tos qui­ló­me­tros do meu objec­tivo pri­má­rio com este texto. De pri­sões a vidas e de vidas a noções mate­má­ti­cas, um pouco por todo o lado, já me debati com dis­tin­tas e diver­sas ordens de ideias. Mas tam­bém, se não pode­mos diva­gar quando nos encon­tra­mos den­tro das nos­sas pri­sões, quando pode­re­mos fazê-lo?

Por falar em diva­ga­ções, é sem­pre supre­en­dente como a mente humana se deixa levar em diver­sas direc­ções no decor­rer de um dis­curso. Por exem­plo, se eu não tivesse men­ci­o­nado o facto de ter-me já des­vi­ado do iní­cio do texto pro­va­vel­mente mui­tos de vós nem se teriam aper­ce­bido disso. Mas é isso que faz de nós huma­nos. Não somos máqui­nas, limi­ta­das pela lógica de 1 e 0 (uns e zeros), sim ou não, yin ou yang. Por muito que acre­di­te­mos no equi­lí­brio uni­ver­sal, há sem­pre áreas cin­zen­tas na nossa vivên­cia, fruto de expe­ri­ên­cias, de quem nos acom­pa­nha, do ambi­ente em que vive­mos, de toda a infor­ma­ção — cada vez mais — que absor­ve­mos. E, no entanto, a mai­o­ria de nós se deixa levar para uma rotina quase robó­tica, em que a mecâ­nica dos dias pouco varia. Mesmo os que se inti­tu­lam de livres espí­ri­tos têm a ten­dên­cia de ser pre­vi­sí­veis na sua “liber­dade”. Não é uma crí­tica, a nenhum dos esti­los de vida, é uma cons­ta­ta­ção. Seja­mos nós pais de famí­lia com roti­nas estan­ques e monó­to­nas ou aven­tu­rei­ros que anda­mos na estrada, em cons­tante via­gem, aca­ba­mos todos por ser pre­vi­sí­veis nas nos­sas acções. E, na nossa huma­ni­dade, somos por fim máqui­nas de carne e osso, cujo pro­pó­sito parece ter sido arqui­tec­tado pre­vi­a­mente por uma enti­dade supe­rior. Uma espé­cie de jogo de tabu­leiro dos deu­ses, se qui­se­rem… Mas será mesmo assim?

… (con­ti­nua)

As minhas prisões — Capítulo V

Depois, parece-me a mim que aquilo a que cha­mam a meno­pausa (ou andro­pausa, no meu caso), quando vier, se irá asse­me­lhar muito a uma ado­les­cên­cia. Afi­nal de con­tas não sere­mos nós seres regi­dos por ciclos? Tal como as fases da Lua, as marés, as esta­ções do ano ou o sim­ples tic tac de um reló­gio bio­ló­gico, somos cri­a­tu­ras que vivem em ritmo — cada um no seu, é claro — mas em ritmo que, ainda que pró­prio, não deixa de ser uma sín­cope musi­cal, uma liga­ção de uma fase a outra, os iní­cios que vêm logo a seguir a cada fim e o reco­meço que isso implica.

Ponho-me a pen­sar nisto e apercebo-me que, mais do que um ciclo, a vida é uma curva senoi­dal. Altos e bai­xos, mas sem­pre com­pas­sa­dos, ape­nas alte­ra­dos pelo valor do ângulo — a nossa pers­pec­tiva sobre as coi­sas — e do arco — a forma como o exte­rior nos afecta. Pode pare­cer uma bizar­ria mate­má­tica, digna de “nerd”, que tam­bém sou, mas parece-me ser algo mais. Ao fim e ao cabo, todos vive­mos duas ado­les­cên­cias, duas infân­cias, mas ape­nas uma idade adulta. Isto, claro, par­tindo do prin­cí­pio que vive­mos o sufi­ci­ente para isso. Agora, a ques­tão, a ver­da­deira ques­tão, é saber se a idade adulta, fase única e irre­pe­tí­vel, está no ponto mais alto ou mais baixo da nossa exis­tên­cia. E como é que nós, a par­tir das nos­sas pri­sões pes­so­ais, con­se­gui­mos alte­rar isso.

Sim, por­que, no meio desta mate­má­tica toda, há algo que é ine­gá­vel. Tal como dois vec­to­res com sen­ti­dos e direc­ções dis­tin­tas, por muito que cada um puxe para o seu lado, o máximo que con­se­gui­mos é um vec­tor que repre­senta a soma de ambos e nunca, mas nunca, a não ser que um deles se demons­tre nulo, o outro per­va­le­cerá. Ou seja, eu, enquanto indi­ví­duo, posso que­rer fazer as coi­sas à minha maneira e seguir o meu cami­nho, inde­pen­den­te­mente de quem me rodeia. Mas nunca, nunca con­se­gui­rei fazê-lo a 100% por­que sofro a influên­cia de fac­to­res exter­nos e deixo que esses fac­to­res sejam afec­ta­dos por mim. E por fac­to­res, entenda-se, pes­soas, even­tos, momen­tos, segun­dos numa exis­tên­cia que não se podem repetir…

… (con­ti­nua)